sexta-feira, outubro 11, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 20 – UM BAIRRO EM HARMONIA

Como já vimos nos capítulos anteriores, os indiozinhos da Granja Guarani eram moleques e meninas muito unidos entre os anos 60 e 80. As discussões eram muito raras. Quando ocorriam, as intrigas eram resolvidas com um risco no chão e um curumim falando para o outro: “Se for homem cospe aqui!”. Um cuspia de um lado, o outro cuspia do outro. O primeiro fazia cara de mal; o segundo também. E, no final das contas, na maioria das vezes, a briga não passava de meia dúzia de palavrões. No outro dia os desafetos estavam brincando juntos de novo.
Há uma explicação, digamos, sociológica para a afinidade e a conseqüente convivência pacífica entre os moleques. Até os anos 80, a Granja praticamente teve o mesmo número de famílias que lá já estavam desde os anos 50. Na verdade, o bairro era uma “grande família” que vivia quase todo o tempo em perfeita harmonia.

Literalmente, a proximidade entre as pessoas vinha de dentro de casa. Casa de pobre, normalmente, tem mais gente do que espaço. Portanto, vivíamos grudados um nos outros em vários momentos do dia. As refeições eram sempre para todos na mesma hora, não importava se um ou outro não estava com fome. Se não comesse junto com todos, ficaria com fome depois.
Até mesmo na hora de dormir, em muitas casas, os meninos dividiam a mesma cama quando pequenos; o mesmo acontecia com as meninas. Os curumins deitavam em lados opostos da cama, ou seja, “um cheirando o chulé do pé” do outro. Só lá pelos 12 ou 13 anos é que ele conquistava o direito de dormir sózinho, a maioria das vezes no sofá da sala.
Também era bastante comum o entra e sai na casa dos vizinhos, Na verdade, com algumas exceções, todos eram da casa de todos. Se alguém chegasse na hora do almoço, por exemplo, um novo prato imediatamente era feito pela mãe do amigo. Na minha casa, eu só não liberava uma lata redonda de goiabada que usei como prato por longos anos, nem sei exatamente porque, mas, parece que a comida ficava melhor nela. Coisa de curumim pequeno.

Se a visita chegava no final da tarde, o moleque não saia sem lanchar. Todos ficavam próximo do fogão de lenha onde nossas mães fritavam bolinhos de chuva que eram polvilhados com açúcar e canela. Eu preferia uma espécie de panqueca frita feita com farinha de trigo e sal. Tudo era devorado com café com Leite C de saquinho (naquela época não tinha Longa Vida e o tipo B era muito caro).   
Nem todas as casas tinham televisão.
Então, claro, o uso era coletivo naquelas quer possuíam o aparelho. Quando a danada ficava fora do ar não faltava moleque para subir no telhado e virar a antena prá lá e prá cá até a imagem voltar. Os botões para tirar o chuvisco e para estabilizar a imagem (horizontal e vertical) só eram operados pelos mais velhos. As famílias se uniam para ver de tudo, desde os desenhos animados para os moleques, até as novelas para os mais velhos.
Antes da TV, as famílias se reuniam em torno das rádio-vitrolas para ouvir as
radionovelas, o futebol e até mesmo a Voz do Brasil. Quando não ouviam rádio, colocavam os discos de vinil para tocar. A Rádio-Vitrola da minha casa tocava também pesados discos de cera de 78 rotações.
A união das famílias se dava também em muitas outras atividades diárias. Era comum, por exemplo, quando alguém ia à Várzea fazer a compra do mês no supermercado (Regina, Ensa ou ABC) trazer também uma listinha com pedidos de mantimentos feitos pelo vizinho. Se o carteiro aparecesse e não achava o dono da correspondência em casa, automaticamente ele deixava a carta com o vizinho.

E assim a vida ia seguindo. Só mesmo um curumim invocado para quebrar a harmonia com uma cusparada no chão perto do pé do amigo. Mas, o “Tô de mal!” não durava mais que algumas horas.

Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG

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