quarta-feira, agosto 07, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 16

Nas décadas de 60 e 70, e ainda durante boa parte dos anos 80, as famílias da Granja Guarani tinham prole numerosa. Era muito comum os casais terem número de filhos superior a 4. Muitos tinham de 6 a 10 filhos. Portanto, a permanência dos moleques e meninas nas ruas do bairro era até certo ponto incentivada pelos pais, como vimos nos capítulos anteriores. Afinal de contas, o que fazer com tantos indiozinhos dentro de casa? Como impedir que eles virassem o lar de pernas pro ar? Realmente, tarefa muito difícil.
Contudo, havia momentos que não tinha jeito, a turma tinha mesmo que ficar trancafiada dentro de casa, após as aulas. Isso acontecia principalmente nos dias de chuva e no final do período noturno. Em dias secos, meninos e meninas ficavam brincando nas ruas perto de casa até por volta das oito da noite. Mas, quando chovia, normalmente as mães não deixavam os filhos sair, embora alguns moleques escapassem para represar as águas das chuvas em grandes poças nos lados das ruas.
Dentro de casa, lógico, os indiozinhos cheios de energia faziam muitas estripulias: era um tal de escalar paredes; virar cambalhota para trás segurando os batentes das portas; brincar de esconde-esconde e se meter debaixo das camas; entre muitas outras brincadeiras.
Nos dias de chuvas, lembro muito bem, aumentava consideravelmente o número de moscas dentro de
casa. Pronto, isso era o suficiente para os moleques mexerem nos apetrechos de costura das mães à busca daqueles elásticos brancos que eram colocados na cintura dos shorts. O tal do elástico, assim como aquelas borrachinhas de amarrar dinheiro, virava arma contra as moscas e as mães só reclamavam porque tinham que limpar as paredes depois das batalhas contra os insetos.
Havia, também, alguns joguinhos prontos que chamavam muito a atenção dos meninos e meninas. Um dos prediletos, sem dúvida, era o jogo de varetas. Quase toda casa tinha aquela latinha em forma de cubo circular com as varetinhas coloridas dentro. Jogos de mágicas também eram muito usados, e, os que conseguiam fazer os truques sem que ninguém percebesse se sentia um verdadeiro mágico. Meninos e meninas também disputavam jogos fáceis de baralho, como a bisca.
Outra brincadeira legal dentro de casa era feita com o barbante entrelaçado nos dedos, que chamávamos de Cama de Gato. Várias figuras geométricas eram formadas dependendo da posição que o barbante era levado pelos dedos. Vencia aquele que fazia uma determinada figura e o oponente não conseguia igual êxito.
O indiozinho que tinha irmãos mais velhos, principalmente irmãs mais velhas, ocupava uma boa parte dos dias chuvosos
aprendendo a ler e escrever. Aí, além do caderno e do lápis, valia usar de tudo. Nossas irmãs compravam muitos cadernos com desenhos para pintar e elas nos cediam suas revistas (Manchete, O Cruzeiro, Capricho, Amiga e Sétimo Céu) para recortarmos palavras e formarmos novas frases. Assim, como já mostramos anteriormente, começava a alfabetização de boa parte dos Indiozinhos da Granja Guarani.
O guris gostavam também muito de ler gibis. Além da tradicional turma do Walt Disney, gostávamos dos personagens da Turma da Mônica, do Fantasma, Capitão América, Mandraque, Homem de Ferro, Super Homem, Batman e muitos outros. Os moleques mais velhos gostavam também das aventuras do Tex, Zorro, e outros bang-bang em quadrinhos. O Renildo tinha muitas coleções na casa dele e emprestava os gibis para quem não tinha. Aliás, ele continua com esse hábito de colecionar HQs e, hoje, possui um acervo de cerca de 20 mil exemplares de gibis.
Nas casas onde havia televisão, os indiozinhos passavam boa parte do tempo vendo desenhos animados. Os mais populares eram o Shazzan, Herculóides, Baleia Mob Dick, Mighthor, Namôr- O Príncipe Submarino, Space Ghost, Speed Racer,  além, é claro, do Zé Colméia e da turma do Manda Chuva.
Os indiozinhos também não perdiam de jeito nenhum determinados seriados de TV. Destaques para Nacional Kid, Viagem ao Fundo do Mar, Túnel do Tempo, Perdidos no Espaço, Jeannie é um Gênio, a Feiticeira, Batman e Robin, Tarzã, Mulher Maravilha, O Homem de Seis Milhões de Dólares, Kojak, Bonanza, lassie, Rim Tim Tim, entre tantos outros. Nesta lista, não podem faltar os nacionais Jerônimo, o Herói do Sertão e o Vigilante Rodoviário.

Mas, quando a chuva diminuía, ou passava, não tinha TV nem gibi que segurava. Os indiozinhos voltavam para rua, com a bola debaixo do braço ou a atiradeira no bolso.

Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG

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