quinta-feira, agosto 29, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 19 (LOUISA E AS ABELHAS)

Casa da Portaria, entrada da Granja Guarani
Em 1963, a Casa da Portaria, aquela mesmo que fica ali bem ao lado do Portal de Entrada da Granja Guarani, ganhou moradores privilegiados. Poucos no bairro os conheciam, mas, eles conheciam quase todo mundo do lugar, afinal, sua casa tinha posição estratégica e janelas envidraçadas, onde, quem estava de fora não via quem estava dentro, e quem estava dentro assistia a todos que passavam pela rua.
Acima, de branco, Louisa. Abaixo, Dona Catherine.
Por recomendação médica, em virtude da excelente qualidade do ar de Teresópolis, foram morar na pequena, mas aconchegante casinha da Dona Ernestina, a curumim Louisa Pimental, sua irmã e sua mãe Catherine Rostan.
Os nomes delas são diferentes porque Louisa e Catherine estavam mais para apaches do que para descendentes dos guaranis, como os demais indiozinhos do bairro. Isso porque elas nasceram nos Estados Unidos. Para se manter, Dona Catherine dava aulas de inglês no Colégio São Paulo, no CEM, No Yazigi e também para executivos da empresa Sudamtex.
O que faz destes ilustres moradores da Granja entre os anos 60 e 70 especiais, na verdade, é mesmo a histórica casa onde moravam. O dono à época da Casa da Portaria era o psiquiatra Dr. Valdemar Almeida, que, dizem, tinha verdadeira paixão pela criação de abelhas (apicultura).  
Abelha Italiana
Quando foi morar neste local, o médico, além da sua esposa, D. Ernestina, levou também suas abelhas italianas. Dr. Valdemar era um homem muito bom e bastante zeloso com sua criação de abelhas. Ele sempre procurava melhorar a qualidade do mel que produzia ali mesmo no quintal da sua casa na Granja Guarani. Ouvindo dizer que as abelhas africanas eram mais produtivas e resistentes, ele resolveu cruzar as duas espécies, africanizando assim a sua colméia. Quando ele morreu, as abelhas foram abandonadas a própria sorte. 
Abelha africana
A pequena Louisa e sua mãe não davam muita importância à colméia, formada por mais de 10 caixas que ficavam enfileiradas sobre pedestais feitos de trilhos de trem, nos fundos do grande quintal da casa. A curumim lembra que os adultos avisavam com freqüência para que ela mantivesse boa distância das abelhas.
Mas devidamente “guarinizada” a “apachezinha” certa vez, aprontou uma arte digna dos seus vizinhos do Largo do Machadinho. Numa tarde de verão, Louisa, duas amigas e sua irmãzinha brincavam no quintal próximo ao galinheiro. De repente, um delicioso e forte cheiro de mel atraiu as indiazinhas para perto da colméia. O mel escorria e pingava no chão.
As curumins, então, pegaram uma grande vara de bambu, cutucaram uma das caixas, e aí começou o pesadelo. A parte de cima de uma das caixas se desprendeu e caiu no chão. Começou um barulho de “zum-zum-zum”, que foi aumentando até ficar ensurdecedor. Rapidinho as quatro saíram gritando “enxame! enxame!”. 
 Na disparada em direção a casa, esperta, Louisa ainda lembrou de soltar os quatro cachorros da família e todos se trancaram dentro de casa, fechando portas e janelas. Em questão de segundos, enfurecidas, as abelhas batiam nos vidros das janelas, e o ataque só terminou ao anoitecer, quando as danadas voltaram para a colméia.
Caixa de abelha
Quem mais sofreu com esse primeiro “estouro das abelhas”, foi a babá das curumins, Dona Júlia,  que ficou com o rosto irreconhecível e nem conseguia abrir os olhos, depois de levar muitas ferroadas. Dona Catherine teve que levá-la às pressas ao Pronto Socorro do Hospital São José, que era o mais perto. Ainda durante este ataque motoristas que entravam na Granja tiveram que abandonar os carros, e pessoas que passavam desavisadas pela rua também eram atacadas e saiam correndo abanando os braços em torno da cabeça. Um cavalo, amarrado na rua da frente, foi tão ferroado que tombou morto ali mesmo, ficando dias jogado, apodrecendo, até que um caminhão da prefeitura veio recolher a carcaça. 
Enxame de abelhas
Mas, o ataque das abelhas também teve um  lado positivo: o reumatismo da mãos, ombros e joelhos da babá, sumiu. O médico, mais tarde, disse que foi um benefício do veneno das picadas das abelhas e as indiazinhas ainda recolheram mais de quatro baldes de mel puro. 
A traquinagem rendeu para as curumins um bom castigo que durou alguns dias. Tempos depois houve mais um “estouro” da colméia, desta vez espontâneo, de proporções iguais ou maiores que o primeiro. Dona Catherine então decidiu que era muito perigoso manter a colméia na propriedade. O agente “qualificado” para acabar com as abelhas provocou outro “estouro”,  saiu correndo e nunca mais voltou. Finalmente, houve uma operação noturna, com auxílio de amigos, que acabou com o pesadelo da família “apache-guarani”.
Nestes estouros, as abelhas picaram todas as pessoas da casa, menos Louisa.

Anos mais tarde, morando no bairro de Santa. Teresa, no Rio, sem querer ela tocou a mão em uma abelhinha e levou sua primeira picada. Resultado, Louisa foi parar no hospital e descobriu que era extremamente alérgica ao veneno dos ferrões das abelhas. Se tivesse sido vítima das abelhas na Granja Guarani, talvez não estivesse hoje, nos Estados Unidos e no Brasil, contando essa história para os seus filhos.

Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG

Um comentário:

  1. Anônimo30.8.13

    Parabéns pera matéria e fotos, vale ressaltar na foto em preto em branco o detalhe das ruas da Granja era de pedras cortadas do alto da Pedreira até o portal da granja... Pena que restam poucas ruas com essa riqueza histórica e mesmo assim ainda querem acabar com elas.

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