terça-feira, agosto 27, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 18 - (SE DANDO MAL...)

Como todos puderam notar nos capítulos anteriores, os indiozinhos da Granja Guarani sempre foram muito irriquietos, em constante atividade física. Os moleques não tinham medo de mato, bichos, locais altos para mergulho nas cachoeiras, cipós para balançar em grandes árvores, enfim, a exceção da vara de marmelo ou do chinelo da mamãe, nada segurava os curumins. Por conta dessa “hiperatividade”, os guris e algumas meninas, de vez em quando faziam visitas forçadas ao Pronto Socorro do Hospital de Clínicas ou do Hospital São José.

O curumim que vos escreve, certa vez ia para a cachoeira junto com seu primo, Ivan, cada qual em sua bicicleta. Cheio de graça o indiozinho aqui queria mostrar que tinha total domínio sobre sua bike e invejável equilíbrio. Quase na esquina da Alameda Maués com a Estrada do Araken avisei pro primo: “Vou andar sem as mãos no guidão e de olhos fechados”. Cinco segundos depois o metidinho estava estatelado com bicicleta e tudo dentro de um bueiro e o primo morrendo de dar risada. A canela doendo e a barriga arranhada não foram suficientes para impedir o mergulho na cachoeira. Mas, que doeu, doeu...
Ainda neste trecho, perto de onde fica o Portal de Entrada da Granja Guarani, os moleques costumavam passar maus momentos com as abelhas que tomavam conta do grande quintal da “Casa da Porteira” boa parte do ano. Algumas vezes o enxame de abelhas atacava sem motivação, noutras, eram os moleques que atiravam pedras e tinham que sair em disparada para fugir das ferroadas. Houve casos de alguns que foram para no Pronto Socorro por causa das abelhas.
O mesmo poço de baixo (cujo nome oficial é Piscina Slopper, e poucos na Granja Guarani sabem disso) era palco de desespero para as mães dos curumins. A piscina, embora área de lazer predileta dos moradores, também era muito perigosa. No fundo do poço havia muitas pedras, algumas grandes e os moleques eram atrevidos no mergulho.
O resultado é que alguns curumins que mergulhavam da “muralha” ao lado do poço se arriscavam perigosamente. Meu primo Luiz, certa feita, mergulhou do local, e, ao entrar
na água, ao invés de dar impulso contrário e subir, foi direto para o fundo e bateu com a cabeça numa pedra. Sangrou muito, ficou desacordado, foi parar no PS e ganhou para sempre um desvio de coluna.
Ainda no poço eram comuns a escoriações nos moleques que escorregavam no “lôdo” da pequena laje que havia junto à piscina, ou nos tombos que levavam quando tentavam fugir dos curumins maiores, como Cid Borracha e Maurício Mucurú,
que tinham o hábito de erguer os menores e lançá-los na parte funda do lugar para que aprendessem a nadar.
Um pouco abaixo da piscina há uma queda de água de cerca de 3 metros de altura. Os moleques tinham hábito de pular de um lado para o outro da corredeira. Quando erravam o salto, despencavam desta pequena cachoeira e se estatelavam nas pedras lá embaixo. Só não ia para no Pronto Socorro quem tinha sorte.
Ainda neste poço de baixo, anexo, há uma grande laje de pedra. Como a água é sempre fria, os moleques ficavam um bom tempo deitados de barriga para baixo para se aquecer na pedra. Resultado: ganhavam vermelhidão em boa parte do corpo e, às vezes, paravam no hospital com algum mal estar.
O mato também tinha seus perigos. Uma vez, um moleque que não me recordo o nome, subiu em um pinheiro para pegar uma cachopa de pinha, numa enorme araucária, no matagal entre a Granja e a Pedreira. A árvore era muito alta, e, no meio da subida ele escorregou. Na queda, o traseiro bateu com tudo em outro tronco de árvore. Machucou feio, mas, teve sorte. Ganhou apenas algumas semanas de imobilização na cama.
Havia outras peraltices que também rendiam merthiolate (como esse danado ardia...), mercúrio, algodão, gaze e esparadrapo nos moleques e também nas meninas mais espivetadas. Meu irmão Arnaldo, por exemplo, quebrou a clavícula tentando virar cambalhota para trás segurando o batente da porta da cozinha. No final do ano, invadíamos a Granja Comary para pegar castanha do Pará e, sempre nos machucávamos na cachopa cheia de espinho do fruto. Também arrumávamos muitos arranhões, e às vezes dentes quebrados, em quedas nos cavalos e jumentos do “Seo Azimiro”. Os moleques da Granja mais crescidos, que arrumavam serviço no Boliche do Hygino, também viviam com as caneladas roxas com os pinos que voavam nos strikes.

Nossos anjos da guarda devem mesmo nos adorar...

Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG

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