segunda-feira, agosto 12, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 17 (A PESCA)

Taú
Já vimos aqui na saga dos “indiozinhos” que os moleques da Granja Guarani nos anos 60, 70 e 80 passavam horas no mato caçando passarinhos. Hoje isso pode soar errado e ambientalmente incorreto, mas, naqueles tempos era uma atividade natural, até por conta da privilegiada localização do bairro, engolido pela densa floresta da Mata Atlântica. Os passarinhos faziam parte do cardápio das famílias, e não eram os únicos alimentos retirados da natureza pelos moleques.
Gambá
Era comum também caçarmos pequenos tatús e gambás. Em terrenos alagadiços, de vez em quando os indiozinhos conseguiam capturar rãs no período noturno. A operação era “arriscada” com lanterna em punho que cegava temporariamente a Rã antes de ser fisgada.
Os moleques tinham medo pois corria a lenda que se a rã saltasse para cima de algum, ela grudaria no corpo e só soltava em dia de tempestade com trovão.
Seguindo a melhor tradição indígena, os guris e as meninas esperavam ansiosos chegar os meses quentes de verão para capturar as Tanajuras, outra dádiva da natureza para o prato dos curumins. Também conhecidas como Içás, as Tanajuras são
Tanajura
grandes formigas aladas com um enorme abdômen que, frito na gordura ou misturado na farofa realmente era uma delícia.
As formigas apareciam sempre em dias com trovoadas e, as Tanajuras surgiam em bandos voando em diversos pontos do bairro. Quando um moleque via a nuvem de Içás imediatamente acionava os amigos e amigas. Daí, cada um pegava uma pano qualquer em casa e uma lata vazia para caça-las. Jogávamos o pano em cima delas e, no chão, retirávamos a “sua bunda” que ia para dentro da latinha.
Farofa de Tanajura

Em casa, o petisco ia direto para a frigideira. Era uma festa só pegar e comer a tanajura.
Os indiozinhos também percorriam os muitos riachos do bairro atrás de outro petisco muito apreciado: o Caranguejo. Esse era mais fácil de pegar e tinha praticamente o ano todo. Bastava entrar nos cursos de água e levantar as pedras nas partes rasas. Fazíamos isso principalmente ao longo do Rio Paquequer ao lado do Parque Nacional, nos intervalos dos poços em que tomávamos banho no verão.

Caranguejo

A maioria dos Caranguejos dos rios, embora parentes, não são tão grandes quanto os Siris do mar. Mas, nem por isso são menos perigosos. Pegar os Caranguejos requeria certa técnica e agilidade. Era preciso levantar a pedra, localizar o bicho e pegá-lo pela parte de trás para não levar uma ferroada das suas potentes garras. Muitas vezes os indiozinhos levavam a pior e saiam com o dedo sangrando, mas, nada que impedia a continuidade da caçada.
Caranguejo cozido
Em casa, o caranguejo ia para a panela com água e sal. Em pouco tempo de fervura ficava com o tom avermelhado, o que significava que estava cozido. Aí era sentar no chão e se lambuzar, com cuidado para não cortar os beiços pois a carcaça do bichinho, após quebrada, era dura e fina feito navalha.  
Ainda nos rios, os indiozinhos da Granja Guarani durante um certo período do ano, ficavam longas

Pesca de Pitú com peneira
horas capturando Pitús, outro crustáceo, parente do camarão. Para essa pesca, usávamos as peneiras de areia fina dos nossos pais pedreiros. A pesca do Pitú era tarefa do indiozinho mais crescido, porque ele só era encontrado nas margens dos rios com capim e com uma profundidade de cerca de meio metro.
Lago Comary
Era preciso ser rápido porque o pitu é arisco e, quando capturado, fazia de tudo para pular da peneira. Era preciso segurá-lo rapidamente e colocar
numa sacola plástica que ficava sempre com um amigo na beira do rio. De vez em quando os indiozinhos se deparavam com pequenas cobras na beira dos rios, mas, nada que assustasse a ponto de interromper a pescaria.
Lago do Saldanha (Iacy)
Os moleques da Granja Guarani também gostavam muito e pescar com varas de bambú, cortadas no próprio bairro. Nossos pais compravam a linha de pesca e nos presenteavam também com os pequenos chumbinhos e anzol mosquitinho. Os dois principais pontos de pesca eram os lagos do Saldanha (Iacy) e o da Granja Comary.
Cará
Havia várias espécies de peixes, mas, as capturadas com mais freqüência eram o Cará, o Mandi, a Tilápia, a Piaba, o Bagre e a Traíra. Os dois últimos eram os maiores e mais perigosos. O bagre tem um espinho no dorso que, se tocado dói muito, e a traíra pequeninos dentes parecendo uma serra. Os dois, quando fisgados, sempre usavam suas armas para tentar escapar.
Bagre
A pesca do Lago Iacy era liberada. Em compensação, a ida ao Lago do Comary era sempre uma grande aventura à parte. Era proibido pescar naquele imenso lago. Portanto, os indiozinhos só se aventuravam no bairro vizinho de luxo à noite. Entrávamos no Comary pela mata repleta de lírios que dividia as duas granjas. Ficávamos escondidos e no mais absoluto silêncio
Tilápia
na beira do lago, encobertos pelas moitas de mato.  

Os “guardas particulares” das mansões da Granja Comary tinham ordens expressas para nos expulsar da beira do lago e, quando nos flagravam, o faziam sem dó nem piedade. Além de tomar a nossa fieira de peixes, os “guardas” também confiscavam nossos apetrechos de pesca. Mas, na maioria das vezes, os indiozinhos conseguiam escapar entrando no mato, porque lá, ninguém era mais rápido que eles. No dia seguinte, a mistura do almoço era invariavelmente peixe frito.

Cesar Rodrigues
Jornalista-Colaborador da AMAGG

2 comentários:

  1. Vania Fagundes13.8.13

    Parabéns pelas historias, muito leegaaal....

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  2. Tania13.8.13

    Parabéns pelo sucesso e pelas excelentes histórias!

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