sexta-feira, agosto 02, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 15

Quadra Praça do Alto
Kichute, Bamba ou Conga nos pés, os moleques da Granja Guarani quando chegavam à quarta série primária eram obrigados a ir estudar no colégio Euclides da Cunha, no bairro do Alto. Muito perto da escola ficava uma quadra de futebol de salão que era parada obrigatória antes do início das aulas. Nesta quadra se reuniam meninos de vários bairros da cidade próximos ao Alto, já que o Euclides da Cunha, nos anos 60 e 70, era a única escola pública da região para quem estava concluindo o antigo primário.

Dessa forma, era inevitável que os guris de um determinado bairro montasse time para jogar contra adversários de outros bairros. Alguns moleques da Granja Guarani se destacavam nas partidas. O Renildo, por exemplo, tinha um chute muito forte. O Meia-Noite desfilava na quadra a mesma elegância que tinha com a bola nos pés no futebol de campo do time do União. O Valdo, também tinha um bom domínio de bola com a canhota. Eu, meu irmão Arnaldo e meu primo Ivan éramos mais voluntariosos, mas também deixávamos nossos golzinhos nas peladas.
Os indiozinhos que não eram muito chegados no estudo matavam aula para ficar jogando na quadra. Hoje, sem dúvida, pagam o preço justo pelo mau exemplo. Havia um menino chamado Adalto, que não era morador da Granja Guarani, e que trocava os estudos pela bola. A diferença é que ele realmente era o craque, o melhor de todos que se exibiam na quadra, e, soube há pouco tempo, chegou a treinar em times profissionais de Minas Gerais, como o Atlético Mineiro, mas, não vingou no futebol profissional. 
Equipe de Esportes da Rádio Globo:
Mario Vianna, Waldyr Amaral, Jorge Cury,
João Saldanha e Luiz Mendes
Por falar em clubes, acompanhar bem de perto o dia a dia dos grandes clubes do Rio também era outra rotina dos moleques da Granja Guarani. O “bem de perto”, na verdade, era através do rádio porque, naquele tempo, eram raras as transmissões de jogos de futebol na TV. E, os moleques do bairro torciam para times diferentes: a maioria era Flamengo, mas, também tinha muito vascaíno, tricolor e botafoguense. 
Os moleques também ficavam encantados com as imagens de futebol no cinema, exibidas pelo Canal 100, antes do início dos filmes.
Era comum entre os moleques andar com um radinho de pilha pelas ruas nas tardes de domingo para acompanhar os jogos. A audiência era dividida entre aqueles que preferiam as rádios Globo, Tupi e Nacional. Na Globo, durante muitos anos os locutores principais eram Waldir Amaral e Jorge Cury. Na Tupi reinava Doalcei Bueno de Camargo e, na Nacional, o “garotinho” José Carlos Araújo. Os repórteres de Campo como os “trepidantes” Denis Menezes e  Washington Rodrigues, Kleber Leite, Iata Anderson e Luiz Penido, além de comentaristas como João Saldanha, Luiz Mendes e Mario Vianna também eram como se fossem “velhos amigos” dos moleques que reconheciam todos pelo timbre da voz.
José Carlos Araújp
 
João Saldanha
O comentarista João Saldanha, que formou a seleção tri-campeão no México, aliás, empresta o sobrenome ao apelido do Lago Iacy, mais conhecido pelos moradores antigos da Granja Guarani como Lago do Saldanha.
Os radialistas tinham características próprias e também bordões como marca registrada. Waldir Amaral sempre começava a jornada esportiva com a seguinte frase: “Você ouvinte, é a nossa meta. Pensando em você é que procuramos fazer o melhor...”. Jorge Cury tinha pulmão de aço e quando narrava gols bonitos bradava um “golaço aço aço”. Quando o seu Flamengo marcava, Cury estendia o grito de um gol por pelo menos 20 segundos no ar. José Carlos Araujo eternizou o “Vai mais, Vai mais, Vai mais garotinho”, copiado em São Paulo por Osmar Santos. A vinheta que anunciava João Saldanha antecipava que o que ele “Falou tá falado!”. Mario Vianna ele comentarista de arbitragem e se o gol valesse, ele decretava “Goooool Leeeegaaaal!”.

Vasco Campeão Brasileiro de 74
Botafogo - início anos 70
Entre os anos 60 e 80, em momentos distintos, os indiozinhos da Granja Guarani torcedores de Botafogo, Fluminense, Vasco e Flamengo, cantavam vitória sobre os amiguinhos. No final dos 60 e início dos 70, o Bota tinha um time melhor. Em 74, o Vasco foi campeão brasileiro.
Em 76 o Flu
A "Máquina" do Flu em 77
montou a famosa “Máquina Tricolor”. A partir de 78 o Flamengo formou a “SeleFla” que papou todos os títulos nacionais, do continente e mundial.
Fla Campeão do Mundo em 81

Primeiro pelo rádio, depois pela TV, os moleques da Granja sempre foram fanáticos torcedores de futebol e, inspirados nos seus ídolos chutavam a bola em várias ruas do bairro. Sonhavam jogar no time do coração do Rio, mas, se conseguissem vestir a camisa do União Futebol Clube, o time do bairro, o faziam como se estivessem defendendo a seleção brasileira em Copa do Mundo.

Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG 

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