quarta-feira, julho 31, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI - PARTE 14

O capítulo de hoje vamos dedicar exclusivamente para falar de futebol que, como não poderia deixar de ser, era a brincadeira de rua predileta dos indiozinhos da Granja Guarani. Era só falar: “Vamos jogar bola!” que, em minutos dois times estavam prontos. No bairro não havia sequer uma quadra de uso da comunidade, muito menos um campo de futebol. Mas, não era por isso que a molecada não praticava o seu esporte predileto. A bola dos moleques era sempre uma de borracha reforçada tipo “Dente de Leite”
Perto do Largo do Machadinho, onde hoje é a Rua Julieta Paim, havia um atalho em meio à um matagal que usávamos para chegar mais rápido ao bairro do Alto. Não me lembro exatamente quem, mas, no meio deste caminho, alguém abriu uma clareira que, pouco tempo depois foi transformado em um “campo de futebol”.
Esse campinho improvisado era de terra batida, cercado de eucaliptos e em cima de um barranco de um dos lados onde hoje é a Rua Ernesto Sansoe. Ali chegou a treinar inclusive o nosso glorioso União Futebol Clube, que falaremos um pouco mais a frente. Pois bem, neste campo de terra batida, sobravam pedregulhos e galhos que despencavam das árvores próximas.
O local foi palco de inúmeras partidas dos moleques que, invariavelmente, saiam do campinho com o kichute vermelho do barro e muitos arranhões pelo corpo porque não havia nem um metro quadrado de grama no campo. Os indiozinhos também saiam muito cansados da peleja porque, a todo instante, em revezamento, um era obrigado a descer o barranco, que tinha uns cinco metros de altura, para pegar a bola lá embaixo na rua.
Para falar de futebol na Granja Guarani é preciso começar pelo time do bairro, o União Futebol Clube, que tem o vermelho como cor predominante no uniforme. O time sempre disputou torneios amadores de futebol e amistosos em vários bairros de Teresópolis. Sempre teve na equipe, em sua maioria, moradores do bairro amantes do futebol.
O União sempre foi mantido graças ao trabalho voluntário iniciado no final dos anos 60 por moradores como Seo Antonio (Toninho Marreta), Sassau, Seo Fagundes, Zé Nabo e muitos outros que direta ou indiretamente davam estrutura. As viagens para jogos fora do bairro, por exemplo, eram feitas na carroceria do caminhão do Sassau. Os demais atuavam como diretores ou apoiadores financeiros do time.
A equipe sempre foi bastante lutadora, quase que literalmente. O time não gostava de perder de jeito nenhum, principalmente na década de 70. Mas, há que se reconhecer que haviam equipes muito mais estruturadas que o União e isso resultava em muitas derrotas para o time da Granja Guarani. O resultado é que os moleques, agora já adolescentes, alguns também na fase adulta, vendiam muito caro os resultados negativos. Brigas dentro e fora de campo eram rotina nos jogos da equipe, principalmente naqueles em o time não conseguia vencer.

Muitas confusões podem ser atribuídas às bebidas que alguns dos nossos “atletas” ingeriam mesmo antes do jogo. Alguns exemplo de jogadores que atuavam nesse tempo são: Cid “Borracha”, goleiro que sempre foi um moleque vaidoso, com cabelos compridos e cacheados, era um daqueles que tomavam algumas antes das partidas e arrumavam confusão depois; Maurício Mucurú, zagueiro, negro alto e muito forte, intimidava os adversários pelo porte físico e pelos trancos. Jogava na base do passou, levou (um sarrafo). Fernando Oraque, jogava no meio e era mais calmo, assim  como seu irmão menor, Orlando, que também jogava no time. Betinho e Edson “Meia-Noite” eram armadores e atacantes, com bom domínio de bola e visão de jogo. Meus irmãos mais velhos Mazinho e Arnaldo também jogavam no time, o primeiro com mais frequencia. O Curumim aqui só vestiu o manto vermelho do União uma única vez, quando faltou jogador em um amistoso na roça, salvo engano, no bairro de Albuquerque.
O União resiste até hoje graças ao trabalho voluntário do “Seo” Alfredo Jaras, o Chileno, que abraçou o time desde o final da década de 70.

No próximo capítulo mais futebol: os rachas na quadra do alto e o fanatismo na torcida dos grandes clubes do Rio de Janeiro.

Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG

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