terça-feira, julho 30, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI - PARTE 13

Dando sequência às brincadeiras de rua entre os “indiozinhos” e “indiazinhas” da Granja Guarani, entre as décadas de 60 e 80, hoje vamos relatar como eram as “Queimadas”, o Bate Figurinha, ou “Bafo”, Bolinha de Sabão; Guerra de Marianeira, Pé de Lata e Ciranda Cirandinha.
A Queimada era uma brincadeira que sempre atraia muitos moleques e meninas na Granja Guarani, quase sempre jogada com a mesma bola de borracha “Dente de Leite” que os meninos usavam na quadra do Alto. Na Queimada, dois times se enfrentam com o mesmo número de jogadores. Riscávamos uma quadra na rua de terra e a dividíamos ao meio. O Objetivo era atingir o adversário que, se não segurasse a bola, saia do jogo “queimado”. Se ele pegasse a bola, era a sua vez de tentar queimar um amigo do time contrário.
O bate figurinha também era uma febre, notadamente nos anos 70. Em quase toda esquina havia moleques e meninas

tentando “ganhar” figurinhas dos amigos no jogo. A brincadeira é simples: dois oponentes colocam suas figurinhas no jogo, fazendo montes dos cards. O “par ou ímpar” decidia quem começava a partida, dando “bafos” na figurinha com a mão em forma de concha. A figurinha que era virada, ficava com o jogador. Se ele não virasse nenhuma, a jogada passava para o oponente. Lembro que uma coleção de figurinhas lançada pelo chiclete Ping Pong nunca entrava nas disputas porque os cards eram muito pesados, feitos em papel-cartão.
Mas, os moleques somente colocavam em jogo as figurinhas que tinham repetidas, ou seja, as que já tinham uma igual colada em seu álbum. Curumins mais espertos, sem que o adversário visse, lambiam a palma da mão, pois, com essa trapaça, era mais fácil virar a figurinha. Quando a trapaça era descoberta, o fulano perdia a vez e, algumas vezes, começava uma briguinha de moleques.
Também era comum os meninos e as meninas trocarem as figurinhas repetidas para completar o seu álbum.
Mas, esse álbum era muito difícil de ser totalmente completo, por causa das “figurinhas carimbadas”, feitas em número muito pequeno pelo editor. Quem conseguia completar o álbum, algumas vezes até ganhava brinde das editoras, que eram buscados na mesma banca de jornais onde os cards eram comprados. Havia até prêmios caros como aparelhos de TV preto e branco, geladeiras e outros eletrodomésticos.

As brincadeiras com bolinha de sabão também faziam a festa da gurizada, principalmente no verão, quando as mães deixavam os curumins à vontade para mexer com água. Não existiam esses brinquedos plásticos modernos para fazer as bolinhas. A brincadeira era quase sempre com canudos improvisados com o galho oco de determinadas árvores como o mamoeiro e bambus, ou ainda com canudos de alumínio cortados das antenas de TV.

Os bambus e os canudos de antena, aliás, eram a base também para a “Guerra de Marianeira”. A Marianeira é uma frutinha que, quando está verde, fica bem consistente e ideal para a guerra que envolvia curumins de ambos os sexos. Normalmente a frutinha era soprada dentro do canudo. A velocidade com que ela saía dependia do tamanho da “arma” e também da força do sopro do moleque ou da menina.
Essa brincadeira, às vezes, doía e deixava marcas no corpo. Mas, nada que não sarasse de um dia para o outro. Além do sopro, a Marianeira podia ser lançada também com estocadas em um dos lados do canudo, feitas com um pedaço de pau. Nesses casos, a “arma” produzia um barulho característico (ploc) e se acertasse alguém certamente iria
machucar.
Vale lembrar que essa frutinha, quando madura, tem cor amarelada, sabor doce, e é prato predileto de muitos passarinhos, especialmente as sabiás. Muitos curumins não resistiam e comiam algumas Marianeiras maduras e o resultado, invariavelmente, era uma dor de barriga seguida de pequena diarréia na certa. Os mesmo canudos dessa guerra eram levados para a escola pelos moleques que atiravam pequenas bolas de papel, devidamente umedecidas com cuspe, no teto das salas de aula. O grude no teto muitas vezes fazia aniversário, para desespero das professoras e das tias da limpeza.
 
A brincadeira com pé de lata era simples. Furava uma lata de leite em pó, passava um barbante e prendia com um prego em uma das extremidades do fio. Daí era só encaixar o pé e equilibrar-se em cima da lata. Os curumins menores faziam o mesmo, só que, em vez de usar a lata, faziam “chinelinhos” com suas tampas. Dentro de casa, isso fazia um barulho danado e podia render uma reprimenda das mães. Na escola, nem pensar... Essa brincadeira é uma derivação das pernas de pau que só os maiores conseguiam se equilibrar.
As brincadeiras de roda, ciranda ou cirandinha, eram bastante interessantes porque aumentava o convívio entre os meninos e as meninas do bairro.
Essa aproximação, onde literalmente os indiozinhos se davam as mãos, elevada o grau de amizade entre eles e também era motivo para início de paqueras, quando os curumins já estavam mais crescidos. No fundo, os meninos não gostavam tanto assim daquela cantoria, mas, a presença das meninas era suficiente para o moleque “pagar o mico” e entrar na roda.

Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG

Nenhum comentário:

Postar um comentário