sexta-feira, julho 26, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 12

Dando continuidade ao relato sobre as brincadeiras de rua dos nossos “indiozinhos” entre os anos 60 e 80, agora registraremos também algumas atividades que eram feitas junto com as meninas. Naquela época, as “indiazinhas” ficavam mais dentro de casa, ajudando suas mães nos serviços domésticos e, ao mesmo tempo, aprendendo a cozinhar, lavar e passar roupa, limpar a casa. Enfim, executavam tarefas tidas como femininas no lar, afinal, eram esses os costumes da época, mas, elas sempre davam um jeito de se juntar aos curumins meninos.
As brincadeiras mais comuns na Granja Guarani que envolviam meninos e meninas eram o Pique Esconde, Pique Bandeira, Três Marias, Amarelinha, Pula Corda, Peteca, e um ousado joguinho para a época chamado “Pera, Uva ou Maçã”, entre outras.
Vamos recordar como eram as brincadeiras:
O Pique-Esconde é o mesmo que sobrevive ainda bravamente até hoje. Diversos amigos se reúnem; um deles fecha o olho e conta até certo número (antigamente contava-se até 50) enquanto os demais se escondem. Ao terminar a contagem, o escolhido para procurar os amigos tinha que localizá-lo, voltar ao ponto de origem e tocá-lo antes do descoberto. O primeiro descoberto era quem fechava o olho na rodada seguinte.
O Pique-Bandeira reunia duas equipes com igual número de amigos. A gente fazia um grande quadrado na rua com um risco no chão, e dividia ao meio. Cada equipe ficava de um lado. Nos fundos de cada lado da “quadra” era colocado um galho de árvore (já que os curumins não tinham bandeira de verdade). Ganhava o jogo quem conseguia invadir o território alheio, pegar o galho e voltar ao seu lado sem ser tocado pelo adversário.
As Três Marias eram um jogo com pedrinhas. Na verdade, preferíamos a versão com 11 pedras que deveriam caber na palma da mão (uma dificuldade a mais pros indiozinhos menores). As pedras eram lançadas para cima e aparadas na parte de trás da mão. Eram lançadas novamente e, das que eram pegas, metade ficava com o jogador e a outra metade voltava para o jogo. Ganhava a partida quem acumulava mais pedras. Detalhe: este jogo na Granja tinha um charme a mais porque, normalmente, utilizávamos pedras “lavadas” que pegávamos no fundo das cachoeiras do Parque Nacional ou nos muitos riachos que cortam o bairro.
O jogo de amarelinha também é o mesmo que resiste até os dias atuais, com riscos no chão em forma de quadrados ou caracol e uma pedra atirada nas “casas”. Tínhamos que pular numa perna só em todas as casas, pegar a pedra, e arremessá-la para a “casa” seguinte.
O Pula Corda era bastante animado. Poderia ser brincado com três crianças (duas “batendo” a corda e uma pulando) ou vários indiozinhos pulando a corda isoladamente ou juntos. O legal era que a velocidade com que se “batia” a corda aumentava na medida em que todos conseguiam o pulo. Quando ficava muito rápido, o pobre coitado levava uma rasteira da corda e ia de bunda no chão.
O Jogo de Peteca era entre duas crianças que jogavam o brinquedo uma para a outra ou, em equipes. No jogo coletivo, como não tínhamos rede para dividir a rua, era feito simplesmente um risco no chão. Ganhava a partida quem não deixasse a peteca cair no seu território.
O jogo das frutas “Pêra, Uva ou Maçã” era bastante interessante, principalmente para os meninos e meninas que chegavam na puberdade.
 

Vários curumins de ambos os sexos se reuniam lado a lado em um canto da rua e outros dois ficavam de frente para eles. Um desses dois tapava o olho do outro com a mão; apontava o dedo para cada um dos que estavam na frente e perguntava: “É esse?”. O que estava com a vista vendava respondia “passa” ou “é”. Quando a pessoa era escolhida, quem tapava o olho perguntava “Pera, Uva ou Maçã?”. Se o que estava de olho vendado respondia pera, tinha que dar um aperto de mão no escolhido; se a resposta fosse maçã, dava um abraço e se a resposta fosse uva, tinha direito a dar um beijo.
Se o indiozinho que tapava olho era amigo mesmo do outro, quando apontava para alguma menina bonita, sem que ninguém ouvisse, ele cochichava no ouvido ou dava um toque nas costas. As meninas faziam algo semelhante e, assim, sobravam beijinhos para todos os lados. A maioria era no rosto, mas, apareciam também alguns selinhos nos lábios. Com o tempo acrescentaram uma “salada mista” na brincadeira e, então, o beijo era língua mesmo. Assim começavam muitos namoros de curumins na Granja Guarani.

 No próximo capítulo vamos continuar relatando outras brincadeiras de rua e também como os indiozinhos passavam o tempo quando eram obrigados a ficar dentro de casa.

Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG
Ilustrações livres Internet

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