quinta-feira, julho 25, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 11

Entre os anos 60 e 80, os moleques da Granja Guarani, só ficavam mesmo dentro de casa se estivessem doentes ou em dia de muita chuva. Caso contrário, os indiozinhos dividiam seu tempo entre as incursões na mata, nas cachoeiras durante o verão, ou ficavam perambulando pelas ruas do bairro. Naquela época não havia qualquer problema de se ficar fora de casa, pois não havia perigo nas ruas.
O bairro sempre teve como característica a forte ligação entre as famílias, com todos se conhecendo desde criança. Além desse aspecto familiar, a Granja tinha pouco movimento de veículos e índice de violência zero. Noutras palavras, não havia, então, qualquer preocupação dos pais em deixar seus filhos nas ruas, onde a diversão era farta e de graça.
Entre os meninos, uma das brincadeiras prediletas era o jogo de gude. O moleque andava com uma sacolinha cheia de bolinhas de vidro pra cima e pra baixo, procurando adversários para uma partida à vera (valendo). Quem ganhava a partida ficava com as gudes do adversário.

As bolinhas transparentes esverdeadas ou azuladas eram as mais comuns. Os chamados “olhinhos”, que eram brancos com riscos coloridos eram muito disputados, porque eram difíceis de se achar. Mais raras ainda eram as carambolas, que eram transparentes, e no seu interior, tinham desenhos imitando a fruta em várias cores. Essa gudes mais raras, assim como as “bilhas”, que eram esferas de aço, quase nunca entravam na disputa dos jogos.
Havia basicamente dois tipos de jogos com as bolinhas de gude: o triangulo e a bulica, sendo o primeiro o mais jogado. Na bulica, era feito um buraco no chão e quem acertasse a gude nele, ganhava uma bolinha do adversário. Meio sem graça essa modalidade. O preferido era o triângulo, onde dois ou mais moleques faziam o desenho geométrico no chão e uma linha a 10 passos dele. No triângulo, cada um colocava igual quantidade de bolinhas de gude.  Para começar o jogo, do lado do triângulo, cada moleque arremessava sua gude atiradora em direção à linha. Aquele que mais perto chegava do risco começava a partida.

O objetivo era com os “tecos” feitos nas bolas, pressionado a gude entre os dedos indicador e polegar, acertar e retirar as bolinhas de dentro do triangulo. As tiradas ficavam com quem acertava a jogada.  O Jogador também podia “matar” o adversário acertando a bolinha dele. Nesse caso, ficava com a bolinha predileta do oponente e também todas as gudes do triangulo. Nem precisa dizer que, de vez em quando, saía briga por causa do jogo, porque nenhum curumim gostava de perder.
Outra diversão garantida, que também podia terminar em confusão, eram as pipas. Na Granja, todo mês de agosto as pipas cruzavam o céu do bairro com o início da temporada de ventos. Quando o vento estava fraco, o curumim cantava: “Vem Vento Caxingulê, bicho do mato qué te morder”. Se não desse certo o guri repetia a cantoria até o danado do vento como soprar.
Naquela época cada moleque fazia a sua pipa com varinhas de bambu, linha 10 para amarrar, papel de seda e cola escolar. Quem não tinha dinheiro para comprar a cola, fazia o grude misturando água e farinha de trigo ou surrupiava arroz cozido da panela da mãe, que também colava a seda.. Quem não tinha dinheiro para comprar o papel de seda, fazia a pipa com papel de pão, revista, gibi ou jornal.
Os curumins menores que não sabiam fazer e nem conseguiam soltar as pipas grandes, se divertiam com os “jalequinhos”, pequenas pipas feitas com folha dobrada de caderno ou jornal e amarrada com barbante. Os “jalequinhos” não voavam mais do que três metros de altura, mas isso já era suficiente para a imaginação do gurizinho ir longe.
Já os moleques maiores se esmeravam na construção de suas pipas. Era muito comum comprar papel de seda com emblema de time de futebol e fazer as pipas com ele. A montagem das varetas tinha que ser perfeita para a pipa não ficar torta e “dar de banda” no ar, ou seja, não ser sustentada pelo vento.

As linhas para soltar as pipas eram enroladas em latas de leite ou em carretilhas feitas de madeira. Os moleques usavam e abusavam do cerol para passar na linha e, dessa forma, “cortar” as pipas dos adversários que estavam no ar. O cerol era feito com cola ou farinha de trigo e vidro moído. Para moer, o guri pegava o vidro, geralmente lâmpadas fluorescentes queimadas, ou outros vidros finos, colocava dentro de um pano e socava com pau ou pedra. Para passar o cerol na linha sem se cortar, o curumim usava um papel mais grosso para cobrir a palma da mão. Mesmo assim, de vez em quando, um ou outro corte aparecia nos dedos
A guerra das pipas muitas vezes acontecia com moleques bem longe um dos outros, por exemplo, entre os guris que ficavam numa rua abaixo da Pedreira, e os que soltavam suas pipas na rua da escolinha, na parte mais baixa do bairro. Se o moleque conseguisse cortar a pipa do outro e ainda apará-la, ou seja, trazê-la emaranhada à sua, ele era o maiorial e ficava com o brinquedo do adversário.  Quando a pipa cortada ficava sem rumo no ar, um bando de curumins a seguia e ela era disputada a tapa quando chegava perto do solo.
No próximo capítulo vamos falar de outras brincadeiras de ruas que envolviam também as meninas do bairro.
Cesar Rodrigues
Jornalista- Colaborador da AMAGG
Ilustrações: Reproduções de óleo sobre tela do pintores David Ricci e Spinelli d’Brito

Fotos Livres na Internet

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