quarta-feira, julho 24, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 10

Continuando a contar como se dava o processo educacional dos “Indiozinhos da Granja Guarani”, hoje, reservamos um capítulo especial ao Colégio Ginda Bloch, que era a grande meta dos moleques do bairro, após a passagem pelo Colégio Euclides da Cunha. O Ginda merece o destaque por ser uma escola absolutamente diferenciada das demais naquele início dos anos 70.
O uniforme da escola era impecável: Camisa Branca (de manga curta, no verão e longa, no inverno) com golas e mangas azuis e um emblema salvo engano com uma coruja do lado esquerdo do peito, encimado pelo nome da mãe de Adolpho Bloch, e embaixo do emblema duas listas azuis desciam até a cintura. A calça era xadrez cinza. Depois de ter passado pela Escolinha da Granja (Sylvio do Amaral) e pelo Euclydes da Cunha, vestir o belíssimo uniforme do “Ginda” dava orgulho aos curumins da Granja Guarani

O orgulho não era para menos. Estamos falando do ano de 1973 ou 74. O colégio, uma obra prima do arquiteto Oscar Niemeyer, feito sob encomenda do amigo Adolpho Bloch em memória da mãe de um dos maiores gráficos e empresários de comunicação que este país tinha nos anos 70 (dono das revistas Manchete e Cruzeiro), era realmente impecável. Visto de cima, as linhas do Ginda Bloch lembram materiais escolares. O que eu mais gostava era o formato do auditório que, com rampas de concreto sobrepostas em círculos, parece um apontador de lápis, e, é claro, não era páreo para as escaladas dos moleques.
Os corredores do prédio eram todos em chão de mármore; as salas de aula tinham o lado externo em paredes de vidro; as portas das salas eram em pesadas madeiras maciças, com maçanetas bronzeadas. Pisos de madeira impecavelmente encerados serviam de base para quase todos os ambientes do colégio. Um grande quadro óleo sobre tela de Dona Ginda Bloch dava as boas vindas aos visitantes logo na recepção da escola. Realmente um luxo! O corpo docente acompanhava o elevado padrão das linhas arquitetônicas do prédio.
Oscar Niemeyer, arquiteto do Ginda Bloch, o mesmo que projetou Brasília 
Conseguir estudar no Ginda Bloch não era tarefa das mais fáceis, pois sobravam interessados e faltavam vagas, uma vez que a escola tinha somente cinco salas de aula. Para a sorte da molecada do bairro que gostava de estudar havia uma espécie de vestibular para alunos de baixa renda. Dependendo da colocação na prova, o prêmio era estudar no Ginda Bloch sem custos adicionais, a não ser o do espetacular uniforme.
Este curumim aqui fez a prova e, ao final dela, a diretora olhou para mim e perguntou: “Mas você não é o “Birruguinha” da Granja Guarani?”. Nem precisei responder e ela já emendou: “A vaga é sua!” Só mais tarde soube que minha “fama” de bom aluno, devorador de medalhas de “Honra ao Mérito” nos finais de ano, havia ultrapassado as fronteiras da escolinha da Granja e do Euclydes da Cunha. Fui um dos primeiros da Granja a estudar nesta magnífica escola e, ainda bem, não único. O exemplo foi seguido por vários colegas nos anos seguintes.
Adolpho Bloch, empresárioque doou a escola para a cidade
Quem estudava na parte da manhã, tinha que acordar cedo, por volta das 06h00. Para chegar ao Ginda dava uma boa caminhada. A saída do bairro era por um estreito caminho de terra em meio à um matagal que misturava eucaliptos e pinheiros, entre outras árvores menores, que alcançávamos, logo depois de passar pelo Armazém do “Seo” Fagundes. Na saída do bairro, antes de chegar ao alto, usávamos como atalho o caminho que apelidamos de Zigue-Zague, passávamos por cima de um riacho em uma bucólica ponte de madeira e alcançávamos a atual Rua Sebastião Lacerda, atrás do Colégio São Paulo, que termina exatamente na Praça Nilo Peçanha, bem em frente ao Colégio Ginda Bloch.
O esforço valia à pena porque o nível de ensino naquele lugar era realmente muito bom e, sei, continua sendo até os dias atuais. Para se ter uma idéia do rigor dos estudos, lembro de uma professora de inglês (que não me recordo o nome), bastante simpática, já idosa, que era britânica e que desde o momento em que entrava na classe, permitia somente o uso da língua inglesa no recinto. O aluno tinha que se virar para tirar suas dúvidas em inglês. Carinhosa, a professora ensinava o curumim quantas vezes fosse necessário determinada oração.  
Hoje, em virtude da importância arquitetônica da estrutura projetada pelo mestre Oscar Niemeyer, merecidamente,  o Ginda Bloch está no rol dos prédios tombados em Teresópolis.
No próximo capítulo vamos começar a contar algumas histórias de moradores da Granja Guarani que marcaram o cotidiano dos nossos indiozinhos.

Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG

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