terça-feira, julho 23, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 9

Desde o final dos anos 60 as primeiras letras que os indiozinhos da Granja Guarani aprendem são ensinadas na carinhosamente chamada “Escolinha” do bairro e que tem, agora, o nome de Escola Municipal Professor Sylvio Amaral dos Santos. Ela foi construída estrategicamente em um terreno escarpado entre a Granja e a Pedreira, o que facilita o acesso dos moleques tanto da parte baixa como da parte alta do bairro.
Nossa escolinha mantém até hoje uma característica bastante peculiar: talvez seja a única unidade de ensino da cidade que pouco ou nada tem de área de lazer e, o único espaço livre do terreno é ocupado por grandes pedras. Problema nenhum para os curumins, afinal, a pedra faz parte do universo dos moleques do bairro e as rochas da escola são objetos de diversão.

No princípio, a escolinha tinha apenas duas salas de aula; uma sala de diretoria; um pequeno almoxarifado com uma minúscula cozinha e banheiros. Sem espaço para crescer, do final dos anos 60 até hoje, essa estrutura foi muito pouco alterada. Em compensação, a escola sempre atendeu às metas educacionais e hoje é referência em ensino fundamental no município, com um bom índice na avaliação do Ideb.
No final dos anos 60 e início dos anos 70 eram apenas duas ou três professoras na escolinha. Uma delas, a Professora Márcia, era bastante especial e logo ganhou a atenção dos mol
eques. Não era para menos, ela era bastante atenciosa, alegre, educada e bonita, do tipo de beleza que realmente agradava os curumins. Parecia que a professora também dera descendente indígena, pois era bem morena e com longos e finos cabelos pretos quase até a cintura.
Naquele tempo os indiozinhos só podiam ingressar na escola quando completasse 7 anos. Mas, alguns com mais sorte, como é o caso desse narrador, já entravam na escolinha sabendo ler e escrever. A alfabetização, no meu caso e de muitos outros curumins, veio antes, de dentro de casa, com zelosas irmãs mais velhas que nos abriam os seus livros. Os moleques também se interessavam muito por gibis (Super Homem, Batman, Fantasma, Capitão América, Rex, toda turma do Walt Disney e muitos outros) e isso facilitava o aprendizado em casa.
Além disso, a direção da Escolinha da Granja Guarani tinha um método infalível para estimular os curumins que chegavam para aprender ler e escrever: todo final de ano havia premiação para os melhores da escola. Quem se destacava ganha pequenas medalhas de “Honra ao Mérito” que acreditávamos ser “banhadas em ouro”, mas que em casa, meses depois, perdiam o intenso brilho amarelo. Junto com as medalhas os primeiros colocados, aqueles que tinham as maiores notas das classes, ganhavam matérias didáticos de presente como livros de desenho para pintar, caixas de lápis de cor e, os pequenos estojos de plásticos com as cobiçadas canetinhas hidrocôr.  
Não ficávamos muito tempo ali porque a escolinha, naquela época, só tinha turmas até o terceiro ano primário. Daí em diante, o destino era quase sempre o mesmo para todos os indiozinhos da Granja, o pomposo Colégio Estadual Euclides da Cunha, no bairro do Alto.
A mudança de escola, lá em meados dos anos 70, significava também uma drástica mudança de hábitos na vida dos indiozinhos da Granja Guarani.
A nova escola exigia um uniforme que nossos pais muitas vezes tinham dificuldade para comprar, principalmente se a prole na escola fosse grande. Lembro que o fardamento do Euclides era uma camisa de mangas longas branca com short ou calça azul. O detalhe é que em cada ombro da camisa havia uma alça que ganhava fitinhas azuis de acordo com a série que o moleque estava. Terceira série, três fitinhas; quarta série, quatro fitinhas; e quinta série, cinco fitinhas.
O curumim aqui teve problemas para explicar a um adulto o que fazia com uma camisa com cinco fitinhas de cada lado, quando estava na quinta série. Parecia um pequeno general com tantas “condecorações” nos ombros. Hoje acho que isso era coisa dos militares que haviam assumido o poder no país, pois os uniformes pareciam mesmo “militarizados”.
O duro era manter o danado do uniforme limpo. É que os moleques chegavam bem antes do início das aulas e, todo santo dia, corriam feito doidos atrás de uma bola cinza de borracha na quadra do Alto, que fica a poucos metros da escola. Mesmo o time que jogava sem camisa, na hora de colocar o uniforme tinha dificuldades por causa do excesso de suor. Os pés, então, que vestiam Kichute, Bamba ou Conga ficavam com um chulé insuportável.
O colégio era enorme, mas, bastante impessoal, porque abrigava alunos de vários bairros próximos do Alto e que quase nunca se viam. De toda forma, era muito bom estudar lá porque, para um curumim de cerca de 10 anos sair da Granja Guarani e ir para o Alto, sempre à pé ou de bicicleta, naqueles tempos, isso, por si só, já era um aventura. Só não gostamos muito em 1974 quando o governo inventou uma tal de 5ª série de admissão, para dar início a fusão do ginasial com o colegial. Na prática, perdemos um ano nessa fusão.

A partir do Euclides da Cunha, muitos indiozinhos, infelizmente, paravam de estudar para começar a trabalhar firme e ajudar no parco orçamento doméstico de suas famílias. O próximo passo de quem continuava nos estudos normalmente era a escola Ginda Bloch. Essa escola que até hoje é referência, realmente era fenomenal. Assunto para o próximo capítulo.

Cesar Rodrigues
Jornalista colaborador da AMAGG
Fotos: O globo, Internet e educanareal.blogspot.com

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