segunda-feira, julho 22, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 8

No capítulo anterior vimos como os “indiozinhos” ficavam apavorados com os lobisomens que dominavam as noites enluaradas de sexta-feira na Granja Guarani. Mas, não eram somente as corridas desenfreadas com o grande lobo no calcanhar que faziam os moleques do bairro tremer.
Mulas sem cabeça, duendes, curupiras e até extra-terrestres rondavam o imaginário da gurizada. Antes dessas novas histórias de arrepiar, é preciso ressaltar sempre que a Granja é cercada de mato por todos os lados. Aliado a isso, embora o bairro tenha sido pioneiro em iluminação, porque Carlos Guinle, o loteador da Granja, implantou na sua fazenda uma usina de energia, a eletricidade era luxo de poucas casas, portanto, as ruas ficavam às escuras.
Esse cenário: mato, escuridão, bichos e riachos em todo canto é perfeito para o surgimento de uma série de fenômenos que assustavam as crianças e muitos adultos.
A mula-sem-cabeça não era presença constante na Granja, na verdade, aparecia pouco e sempre na entrada do bairro da Pedreira. Ela assustava mais à distância, colocando medo em quem precisava alcançar a parte alta do bairro. Empinava sua “cabeça de fogo” na frente de quem subia pelo caminho de lajota de pedra onde hoje é a Rua José Clemente Pereira e desaparecia quando chegava na esquina com a Alameda Curupiras.
E por falar em Curupira não é à toa que esta alameda tem esse nome, na parte alta da Granja Guarani, que também chamamos de Pedreira. Ate o início dos anos 80, a parte alta do bairro tinha poucas residências. Havia muito mato, mas, já existiam as ruas atuais que ainda continuam sendo engolidas por esse recanto magnífico da Mata Atlântica.
O Curupira era visto com alguma freqüência pelos moradores destas grandes alamedas da Pedreira até as proximidades com o Mirante da Granja Guarani (Quiosque das Lendas). Mas, ele não fazia mal, apenas assustava quem tinha intenção de entrar na mata para caçar, pois, como se sabe, o curupira também é um curumim, mas, com os pés virados para trás, que é para enganar os caçadores. Ele é um protetor da floresta. Assustava mais os adultos que entravam no mato com arma de fogo. Os moleques que usavam estilingue não eram incomodados pelo curupira.
Os moleques da Granja também tinham medo de passar sozinhos em frente ao Carramanchão, não só por causa do Curupira. É que uma das gravuras do Quiosque, que retrata a lenda “Como a noite apareceu”, traz uma enorme serpente se postando ameaçadoramente na frente de dois índios. Os mais velhos diziam que quem passasse pelo mirante poderia ser atacado pela enorme cobra que saltava dos azulejos para abocanhar quem invadia seu território.
Na parte alta da Granja Guarani, bem no final da Alameda do Arakém, havia uma casa mal assombrada. Ela pertencia à uma família do Rio de Janeiro e vivia a maior parte do tempo fechada. Meus pais moraram algum tempo neste lugar, trabalhando como caseiros. Minha mãe conta que as portas abriam e fechavam sozinhas, assim como as luzes se acendiam e apagavam sem ninguém tocar no interruptor.
Nesta casa, ela também ouvia vozes do além e, no jardim, contava que os balanços e uma gangorra se mexiam sozinhos. Ainda no jardim, Dona Maria conta que, certa vez, apareceu um pequeno duende, de menos de 20 centímetros de altura, vestindo fraque e cartola. O tal duende permaneceu por cerca de uma semana estático em cima do galho de uma roseira e era visto, inclusive, de dia.
Impressionada, minha mãe chamou um vizinho para conferir se aquilo não se tratava de uma miragem. O vizinho era um senhor umbandista e se impressionou com o tal duende. Apesar de estar acostumado a lidar com o lado espiritual bastante acentuado na sua religião, o tal vizinho, segundo minha mãe, não só viu como também não soube explicar quem era o que fazia ali o pequeno e misterioso visitante da casa mal assombrada.  
Do início até meados dos anos 80, os moleques da Granja Guarani também se assustaram muito com a história de uma nave extra-terrestre que havia pousado na já desativada Pedreira, na parte alta do bairro. Nesse tempo, foi registrado o sumiço de muitos animais de estimação como bodes, cachorros e gatos naquela parte do bairro. Segundo os moradores, o desaparecimento dos bichos só podia ser coisa dos ETs. Pelo sim, pelo não, os moleques e também os adultos evitavam circular à noite nas proximidades dos “canhões” da Pedreira, onde teria pousado o disco-voador.

No próximo capítulo vamos contar um pouco sobre como os indiozinhos aprendiam a ler e escrever. Os primeiros anos na escolinha do bairro serviam de base para os estudos nas escolas dos bairros do Alto e Várzea.

2 comentários:

  1. Anônimo23.7.13

    Tambem cresci na Granja Guarani. Primeiro morei naquela casa bem na entrada da Granja. Hoje essa casa foi engolida pelo matagal and tomada por um posseiro. Que ele faca bom uso de sua nova moradia! Depois mudamos mais pra cima, na Curva do S, bem em frente ao Parque Nacional, separados apenas pelo Rio Paquequer! A Verruga do Frade, faz parte do meu imaginarium! Alias, tenho ele "pintado" na parede do meu quarto, em um estilo hippie, claro!!!
    Hoje, moro no estado de Virgina, nos EUA, fazendo fronteira com Washington DC, mas tenho em mim eternas memorias, de um tempo livre e muito significativo em minha vida. Teresopolis, Granja Guarani, O Charramamchao, "pescacao" de pererecas, espetar o pe bo espinho de amendoeira, ir na benzedeira pra curar daquelas malcriacoes que saiam da minha boca, andar a cavalo sem sela, tomar so banho de cachoeira ,lavar roupa no rio e perde-las agua abaixo!!! Eh, eu fui feliz, e ainda sou!!!

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    1. Anônimo24.7.13

      Gostaria que o amigo que mora nos Estados Unidos deixasse aqui a sua identificação, importante para o conteúdo do nosso blog.
      Cesar Rodrigues
      Jornalista-Colaborador da AMAGG

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