sexta-feira, julho 19, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 7

Indiozinho que se preza não tem medo de nada...ou pelo menos quase nada. E os moleques da Granja Guarani são mesmo destemidos. Nas décadas de 60 e 70, como já vimos, os curumins viviam um bom tempo dentro da vasta floresta que abraça todo o bairro até hoje. Portanto, era muito comum se deparar com aranhas, cobras, gambás, enfim, animais que até poderiam assustar, mas isso não acontecia. Entretanto, seres muito estranhos causavam verdadeiro pânico nos curumins e também nos adultos, como veremos a seguir.
Vamos começar com o Lobisomem. Entre os anos 60 e 80 a granja sempre teve um. E não era difícil descobrir qual o morador que, nas sextas-feiras com noite de lua cheia, se transformava no enorme bicho que atacava cavalos e cachorros e espalhava horror nas ruas, pequenas vielas e servidões do bairro.
Os indiozinhos não tinham dúvida. Nos anos 60 e 80, o lobisomem era o “Seo” Xandico e, nos anos 80, quem se transformava em um grande lobo era o “Seo” Vitalino. Lógico que ninguém nunca fotografou ou filmou a transformação, mas, esses dois personagens de fato eram mesmo muito sinistros.
O Xandico era um senhor branco, magro, alto, de cabelos brancos mesmo quando ainda não era velho e morava na rua que saia da escolinha e entrava no centro do bairro, onde hoje é o início da Rua José Bonifácio. Ele também tinha muitos pelos no braço, no dorso das mãos e nos dedos, além de grandes sombrancelhas quase caindo sobre os cílios dos olhos que pareciam ser claros, verdes ou azuis.
Só esse aspecto físico já contribuía muito para recair sobre o “Seo” Xandico a desconfiança de que ele era o Lobisomem da Granja. Além disso, o velho era muito desconfiado, seu barraco era envolto por muito mato alto, ele não falava com ninguém e pouco era visto na rua de dia. Nos poucos contatos que molecada tinha com ele, o velho exalava um forte odor, típico de quem não era adepto de banhos, mesmo os semanais, como era comum naquela época.
Seo Xandico também nunca foi visto na Capela católica do Imaculado Coração de Maria, na Granja e nem na Igreja de Santo Antonio, no Alto, mesmo na grande festa do santo, em junho. Portanto, ele não devia ser muito religioso. A molecada não tinha dúvida (alguns adultos também) e decretaram: “O lobisomem é o Seo Xandico”. Como não falava com ninguém no bairro, o velho não desmentiu.
Já nos anos 80, o lobisomem da vez era o Vitalino. Esse também era muito estranho. Andava com quatro relógios no braço e cara de poucos amigos. Era branco, magro e alto, cabeludo e barbudo. A exemplo do “Seo” Xandico tinha hábitos estranhos, não conversava com ninguém e olhava ameaçadoramente para os indiozinhos da Granja Guarani.
E o que os lobisomens faziam que assustavam tanta gente? Nenhuma pessoa foi ferida pelo grande lobo, mas, sobram histórias de moradores que juram ter ficado frente a frente com o bicho nos becos do bairro em noites de lua cheia. Contavam que na escuridão só viam o olho do bicho brilhando, e um vulto grande de quatro patas peludo feito cachorro, mas quase do tamanho de um cavalo.
Com medo, quem encontrava a fera no meio do caminho, disparava correndo em sentido contrário. O infeliz que dava de cara com o lobisomem dizia no dia seguinte que foi seguido pelo bicho que rosnava alto feito cão bravo. Para escapar, contava que teve que dar várias voltas no bairro, entrando e saindo de servidões, até se livrar da perseguição do feroz animal.
O lobisomem também atacava gatos e cachorros em vários pontos da Granja Guarani, além de devorar galinhas e patos de criação dos moradores. Outra vítima freqüente do bicho eram os cavalos do “Seo” Argemiro que dormiam em um grande quintal gramado acima da casa do dono.
De vez em quando, de fato, galinheiros apareciam destroçados, gatos e cachorros amanheciam mordidos em várias ruas da Granja e, coincidência ou não, sempre depois de uma noite de sexta-feira. Os cavalos também apareciam com ferimentos estranhos na altura das patas, das coxas e no pescoço. Os cavalos ainda sobreviviam, mas, muitos cães e gatos morreram misteriosamente e dos frangos e patos só ficavam as penas.
Também em noites de lua cheia, por diversas vezes, os moradores ouviam barulho estranho de algo se roçando na parede de suas casas. Como muitas das moradias eram de madeira ou pau-a-pique naqueles anos, também era possível se ouvir com clareza a respiração ofegante do bicho que dava voltas e voltas em torno da casa.
Uma vez isso aconteceu na minha casa. Meu pai tinha como hobby a caça (que naquele tempo não era tão proibido) e, por isso, mantinha em nossa residência uma garrucha e uma espingarda, ambas de dois canos. Na noite que o lobisomem foi tirar o nosso sono, nosso pai estava trabalhando no Rio de Janeiro. Corajosa, minha mãe me deu a garrucha e ficou com a espingarda em uma de suas mãos, na outra, carregou o terço de reza.
Realmente algum bicho bufava e dava voltas na nossa casa, além de fazer muito barulho em um bambuzal que tinha no nosso quintal. Minha mãe e eu fomos para uma das janelas da casa e, após alertar uma vizinha que tinha algo de estranho em nosso quintal, ela gritou pro bicho: “seja o que for apareça agora. Se for gente tenho bala na espingarda. Se for bicho tenho a força do terço e do Nosso Senhor. O sangue de Cristo tem poder!”
Seja lá o que for, depois da valentia de Dona Maria e do seu pequeno curumim, o silêncio reinou em volta da nossa casa. No outro dia de manhã fomos olhar o quintal e havia mesmo algumas marcas estranhas no chão de terra batida, e o “Seo” Argemiro, que era nosso vizinho, também contou que seus cachorros e cavalos também não tiveram uma noite tranqüila.

Além de lobisomens a Granja tinha mula-sem-cabeça, duendes, serpentes que saltavam das paredes do Mirante, assombrações e até extra-terrestres e que assustavam os indiozinhos e também seus país. Isso fica para o próximo capítulo.  

Cesar Rodrigues
Jornalista-Colaborador da AMAGG

Um comentário:

  1. Kiko Diretor da AMAGG20.7.13

    Cara tu foi longe, li fiquei emocionado e arrepiado, como escutei essas histórias, e era tudo "verdade", voce acredita que a falecida mãe de Darcy Aurora, contava para nós essas mesmas histórias, seu "zimiro" não tinha sossego com seus cavalos que eram muito bem tratados, cansamos de escutar essas respirações ofegantes uivos muito alto e a cachorrada não parava de latir, as galinha no outro dia apareciam mortas ou depenadas, certa vez a porta do barraco da mãe de Darcy Aurora, amanheceu toda arranhada, era louco ouvir esses "causos", muito obrigado nos relembrar parte da nossa infancia.

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