quarta-feira, julho 17, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 6

Até aqui a saga dos “Indiozinhos da Granja Guarani” mostrou o quanto os moleques viviam em harmonia com a exuberante natureza do bairro entre os anos 60 e 80. Mostramos também o quanto os curumins eram responsáveis porque, desde cedo, aprendiam a trabalhar sem reclamar. Mas, moleque é moleque e os indiozinhos adoravam aprontar travessuras, umas mais sérias, outras absolutamente perdoáveis. A natureza continua até hoje dominando o cenário da Granja Guarani, mas as peraltices atuais não fazem frente às estripulias dos guris naquele tempo.
O espírito de aventura dos indiozinhos, aliada à falta de consciência ambiental, levava os moleques a cometer, na minha opinião, talvez o seu maior pecado: matar passarinhos. A Granja e a Pedreira eram, e continuam sendo até hoje, reduto de dezenas de espécies diferentes de aves. Com isso, passarinhos como sabiá-preta, sabiá-laranjeira, sanhaço, sairinha, rolinha, trinca-ferro e coleirinhos, entre muitos outros, não escapavam da mira certeira dos moleques.

A caçada era com a Atiradeira ou Estilingue, como queiram. A arma era feita com gancho preferencialmente de goiabeira, por ser mais resistente e com tiras de borracha recortadas de câmaras de ar de bicicletas. De vez em quando aparecia um moleque com atiradeira feita com borracha de uso de hospitalar, que eram presente de algum parente que trabalhava na área médica ou devidamente surrupiada numa das muitas vezes que os moleques visitavam o Pronto-Socorro do Hospital São José ou da Casa de Saúde para tomar vacina ou cuidar de algum ferimento.
A Atiradeira feita com a borracha hospitalar ou “liga de soro”, como era mais conhecida, era mais resistente e dava mais velocidade e precisão às “balas”. A bala, no caso, era a pedra atirada contra os pássaros no alto das árvores. A cada pássaro morto, o moleque fazia uma marca com um corte circular na base do gancho do estilingue.
As caçadas eram organizadas: os moleques menores, que ainda não sabiam atirar, eram encarregados de no caminho procurar as melhores pedras e colocar em um bornal. Os curumins menores acompanhavam de perto o atirador e ficava municiando-o com as “balas”. O mais difícil era manter o silêncio no meio do mato pra não espantar os passarinhos.

As caçadas rendiam mais nos dias chuvosos. Só escapavam das baladas os beija-flores, as cambaxirras e as andorinhas. Rezava a lenda que matar qualquer um desses pássaros era pecado e passaporte certo pro inferno, além do que o azar iria acompanhar o infeliz em todas as outras incursões que fizesse na mata. Fora isso, o bornal que ia cheio de pedra voltava lotado de passarinhos que os moleques mesmo depenavam para as mães limparem antes de fritar na frigideira. Neste ponto, ainda bem que hoje o computador distrai a molecada.  
Pequenos “furtos” eram rotina no cotidiano dos indiozinhos da Granja Guarani e, roubar frutas no quintal do vizinho era o mais comum destes delitos. A vítima predileta era o “Seo” Antonio Verdureiro, caseiro de uma pequena chácara em próximo do Largo do Machadinho. Neste local, ele mantinha um belo pomar e uma grande horta. As frutas e verduras que cultivava eram vendidas em uma carroça puxada por cavalo e que abastecia todo o bairro.
Pois bem, entrar no pomar do “Seo” Antonio não era tarefa das mais fáceis para os curumins. O lugar era cercado com arame farpado e também com uma “cerca viva” de pequenos cedros. A fruta predileta no pomar era a mixirica verde carioca, mas, o que dava pra enfiar no bolso era levado. O assalto tinha que ser rápido, porque “Seo” Antonio parece que adivinhava a hora da invasão e aí não economizava chumbinhos da sua espingarda. Nunca um moleque foi ferido, mais porque o verdureiro era uma excelente pessoa do que péssimo atirador.

Contudo, “Seo” Antonio foi vítima do ato mais grave cometido pelos moleques dos anos 70 (a exceção, é claro, das caçadas de passarinhos). O caso foi batizado pelos indiozinhos de “O Assalto ao Trem Pagador”, em alusão à um conhecido filme nacional da década de 60. O “trem”, no caso foi a carroça do gentil verdureiro.
Explicando melhor: “Seo” Antonio costumava guardar em duas caixas de madeira fixadas nas laterais da sua carroça, todo o dinheiro que arrecadava com a venda das frutas e verduras. Isso era feito na hora da venda e, para azar dele, os moleques assistiam à cena. Numa noite, os curumins esperaram o homem dormir, invadiram a chácara e limparam os cofres improvisados do verdureiro.
No outro dia, de bolso cheio, os moleques fizeram várias visitas aos butecos do bairro para comprar doces e refrigerantes. Quer dizer, foi uma moleza para o “Seo” Antonio descobrir quem eram seus algozes. Ele foi de casa em casa avisando aos pais dos pequenos larápios e isso rendeu boas surras de chinelo e de vara de marmelo nos curumins. “Seo” Antonio não teve o dinheiro de volta, mas, ganhou uma trégua dos moleques que, por pelo menos umas duas semanas, não mais entraram no seu pomar e nunca mais passaram perto da carroça.
Além desses pequenos delitos, os indiozinhos cometiam estripulias mais amenas, como por exemplo, ir pescar à noite em locais proibidos do Lago do Comary, tendo sempre que fugir dos vigias;  apertar campainha dos vizinhos e se esconder; pegar os cavalos do “Seo” Argemiro e do Grilho para passear, sem consentimento dos donos; desligar os relógios de luz dos moradores ricos da pedreira; atirar ovo podre de cima do mirante nas pessoas que passavam na Estrada do Arakem; montar nos bodinhos de aluguel do Batista fazendo-os de cavalos; dar nós nas calças dos peões de obras que trabalhavam nas casas dos condomínios; tomar banho de piscina escondido nas casas dos veranistas e saiu correndo do caseiro; e à noite, entrar escondido nos bailes no comércio da Dona Maria Maura, escapando pelo mato quando chegava os agentes do “juizado de menores”.

No próximo capítulo, Lobisomens e outros seres sobrenaturais assustavam os indiozinhos da Granja Guarani...Confira.
Cesar Rodrigues
Jornalista-Colaborador da AMAGG

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