terça-feira, julho 16, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 5

No capítulo anterior relatamos como os moleques da Granja Guarani começavam a trabalhar bem cedo para poder ganhar dinheiro, ajudar a família e também ter um pouco de diversão, além dos banhos nas cachoeiras e incursões na mata. Passamos agora a enumerar como os curumins gastavam esse dinheiro.
Os moleques gostavam muito de ir ao cinema principalmente nas matinées do Cine Arte, no Alto, mais perto de casa ou nas sessões à tarde do Cine São Miguel, na Várzea, onde sempre passavam filmes de bang bang (ou faroeste), os preferidos dos meninos, Não íamos aos cines Alvorada e Vitória, porque quase sempre os filmes eram só “para maiores de 18 anos”, como alertavam os cartazes.

Os moleques também adoravam ir ao Parque de Diversão que ficava na reta, logo depois da esquina da Padaria Império, onde os brinquedos prediletos eram o “Chapéu Mexicano”, bem ao gosto dos curumins da Granja que também viviam voando nos cipós de altas árvores no bairro; e ainda os carrinhos do “Bate-Bate” pela sensação de se dirigir um carro de verdade.
A barraca de “Tiro ao Alvo” igualmente era endereço certo dos moleques que saíam dela cheios de brindes, não sem antes pregar providenciais “percevejos” nas rolhas de cortiça que eram atiradas pelas espingardas de pressão. Com a “trapaça” o projétil ficava mais pesado e não saia do alvo da mira. Curumins mais velhos tentavam a sorte da barraca das argolas, cujos alvos prediletos eram as garrafas de batidas, que eram consumidas no ônibus, na volta para casa.
Outro lugar onde os meninos deixavam seus trocados era no Parque Regadas. Neste ponto, havia naqueles tempos uma concentração de diferentes casas de brinquedos eletrônicos, os chamados “Fliperamas”.
Não precisa nem falar que os moleques, sempre com pouco dinheiro, aprontavam inúmeras artimanhas para jogar várias vezes na máquina com a mesma ficha, valendo, inclusive, amarrá-la com um fio de nylon e puxá-la de volta quando o jogo estivesse por terminar. Funcionava, até que o dono do “Fliper” descobrisse a tramóia e, quando isso acontecia, os moleques eram nada gentilmente convidados a se retirar do estabelecimento. De vez em quando sobravam uns cascudos, mas, no outro final de semana estavam todos lá de novo.
Quem não queria, ou não tinha dinheiro para ir para a Várzea, gastava os trocados na Granja Guarani mesmo. Nesse caso, o local predileto era no andar de cima dos fundos do bar do “Seo Zé Nabo”, hoje Bar do Kiko, seu filho. Alí havia uma disputada mesa de Totó (ou Pebolim), onde os moleques gastavam muitas fichas às escondidas. É que o dono do bar tinha receio de que alguma autoridade flagrasse menores de idade jogando no lugar, o que, segundo ele, era proibido.
Ilegal também era, e é, o consumo de bebidas por parte do moleques do bairro. Mas, até por influência dos mais velhos, que viviam dependurados nos balcões dos diversos botequins da Granja Guarani, os indiozinhos também gastavam uns bons trocados principalmente com a Cachaça Coquinho e com batida de Amendoim.
Também era proibido, e praticamente inevitável, a iniciação no cigarro e, muitos moleques começavam a fumar bem cedo. Lembro de uma vez que eu, meu irmão Arnaldo, meus primos Ivan e Sidnei, além do amigo Valdo compramos um maço de Kent sem filtro (que tinha uma embalagem verde), e subimos numa árvore para fumar escondidos. Como era a primeira vez que todos tragavam, o resultado foi que todos sem exceção ficaram tontos e despencaram do galho. Sorte que a queda não foi de muito alto e havia um riacho embaixo que amorteceu o tombo.
Lógico que os moleques também guardavam alguns trocados para comprar doces nos bares e picolés no verão. Os curumins gostavam também de comprar um delicioso doce “Mil Folhas” que era vendido em um trailer, ao lado da quadra de futebol da Praça do Alto. Mas, isso era só de vez em quando porque o dito cujo, lembro bem, era tão caro quanto gostoso.
Além de gastar dinheiro com cinema, parques de diversão, fliperamas, bebidas e cigarros, indiozinhos mais espertos faziam economia para comprar coisas pessoais. E, o sonho de consumo, não poderia ser outro senão a bicicleta. Naqueles tempos o mercado era disputado apenas pela Caloi e Monark.

Mas, raramente os moleques conseguiam juntar dinheiro para comprar bicicleta nova. A saída era adquirir uma usada em duas bicicletarias que alugavam, consertavam e vendiam bicicletas nas proximidades da Escola Ginda Bloch. Dependendo do modelo comprado, era comum os moleques virarem o guidão de cabeça para baixo para imitar os guidões das motos.  

No próximo capítulo, o lado “capetinha” dos Indiozinhos da Granja Guarani. Os moleques aprontavam demais...

Cesar Rodrigues
Jornalista-Colaborador da AMAGG

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