segunda-feira, julho 15, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 4

Dando continuidade à saga dos “Indiozinhos da Granja Guarani”, depois de relatarmos a relação dos
moleques com a vasta floresta que há no bairro; seus banhos de cachoeira; e as “invasões” à piscina do Parque Nacional, agora, vamos mostrar que os curumins também aprendiam a trabalhar bem cedo.
É preciso ressaltar que estamos nos referindo aos moleques cujos pais residiam no que vamos chamar de Granja Guarani proletária. Até porque, há no bairro uma parcela significativa de moradores das classes A e B que os filhos, por motivos óbvios não precisavam se sujeitar à rotina de trabalho dos seus vizinhos menos abastados.

Os curumins a que nos referimos são filhos de honestos trabalhadores da construção civil (pedreiros, pintores, eletricistas, carpinteiros, marceneiros, entre outros), do comércio, de profissionais autônomos (empregadas domésticas, jardineiros, etc) ou até mesmo de pequenos comerciantes da Granja Guarani.
Pois bem, salvo raras exceções, os pais dos “Indiozinhos” tinham dificuldades para cobrir as despesas da família naqueles duros anos 60, 70 e 80. Consequentemente não sobrava dinheiro para que as crianças pudessem ir a cinemas, parque de diversão, ou adquirir algum desejado brinquedo.
Mas, os moleques da Granja Guarani não eram acomodados e, desde cedo, buscavam várias fontes alternativas de renda. O dinheiro amealhado no trabalho ajudava no orçamento doméstico, na aquisição de objetos pessoais dos meninos e ainda eram aplicados em diversão típica de outras classes sociais.

Um dos “serviços” que mais agradava os moleques da Granja Guarani era o aluguel dos cavalos do “Seo Argemiro” ou “Seo Azimiro”, como os indiozinhos o chamavam. Ele era um senhor negro, magro, baixo, de fala extremamente mansa, que tinha no aluguel dos cavalos, uma complementação para o baixo salário de jardineiro no Parque Municipal.
“Seo Azimiro” tinha sempre cerca de 10 animais para aluguel, entre cavalos e jumentos para montaria e cavalos de charrete. Dava “emprego” para igual número de moleques que, na verdade, se divertiam muito mais do que trabalhavam naquele “bico” de final de semana. O ponto de aluguel dos cavalos era na Praça do Alto, de onde saíamos acompanhando turistas para pontos específicos como o Parque Nacional, a parte alta da Granja Guarani e a Granja Comary.
O bom de alugar os animais era que, além de ganhar uns trocados, os indiozinhos se divertiam bastante porque, qual moleque entre 12 e 15 anos que não gosta de galopes, trotes e a companhia sempre carinhosa de um cavalo? Só os jumentos eram mais arredios.
Além disso, no domingo à tarde, após o “expediente” os curumins ainda tinham a tarefa mais prazerosa que era “levar os cavalos para o pasto”. Os pontos de pasto eram no morro próximo ao Hospital São José e também numa planície no então longínquo bairro do Quebra-Frascos. Imagine a alegria dos moleques galopando da Granja Guarani até esses pontos distantes. A aventura era maior ainda porque a ida ao pasto tinha que ser no pêlo do animal, ou seja, sem o arreio, tarefa a ser cumprida só mesmo por quem tem DNA indígena. Antes de alugar os cavalos, entretanto, os moleques tinham que passar por um estágio de aprendizado alugando bodes que puxavam pequenas charretes infantis em volta da praça.

Outra atividade, esta nem tanto prazerosa, que rendia bons trocados para os moleques da Granja Guarani, era a de cortar a grama nos enormes quintais das casas dos ricos na parte mais alta do bairro. Não havia cortadores de grama naquela época e, a tarefa era bastante difícil porque tinha que ser feita com enormes tesouras de jardim. Fazia calos nas mãos, mas, valia à pena pois a recompensa era considerável.
Durante um bom tempo os meninos também faturavam um bom dinheiro vendendo pirulitos artesanalmente feitos pela Dona Isabel, esposa do “Seo Jazi”. Lembro até hoje daquelas bandejas de madeira cheias de furo onde eram colocados os doces em forma de guarda-chuva fechado. O tal do pirulito era caramelizado e a dona Isabel os fazia em enormes tachos de metal bronzeado, provavelmente cobre. O danado era doce ao extremo, mas, sempre vendíamos tudo nas cachoeiras do Parque Nacional ou na Praça do Alto.
Nos anos 70 também era comum os meninos juntarem garrafas, metal e outros “ferros-velhos” para vender para uma pessoa que aparecia esporadicamente na Granja Guarani. Quem preferisse poderia trocar os objetos por pintinhos de galinha. A troca não era um bom negócio pois a maioria das aves morria dias depois, principalmente porque não sabíamos alimentá-las direito.

Também esporadicamente era possível faturar algum trocado vendendo limões na Várzea. Os moleques era contratados por revendedores que separavam cerca de um quilo do produto em saquinhos amarelos em forma de rede. Dava muito trabalho porque tínhamos que andar quase todo o centro comercial da cidade, da Praça da Matriz de Santa Tereza até a Rodoviária.
Anos mais tarde, com a implantação da Feirinha do Alto, curumins da Granja Guarani passaram a fazer “bicos” guardando vagas de estacionamento para carros dos turistas. Alguns também se enfiavam dentro de pesadas fantasias de animais no trenzinho que animava os visitantes. No verão, era comum, ainda, os indiozinhos maiores serem recrutados por sorveterias da cidade para vender picolé no carrinho.

Como os moleques gastavam o dinheiro que ganhavam trabalhando? Assunto o próximo capítulo da saga dos “Indiozinhos da Granja Guarani”.
Cesar Rodrigues
Jornalista - Colaborador da AMAGG

Fotos cavalo e trenzinho: Blog Sem Destino

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