quarta-feira, julho 10, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 3


Dando continuidade à saga dos Indiozinhos da Granja Guarani, ou mais precisamente ao cotidiano das crianças deste bairro nos anos 60 e 70, neste capítulo trataremos da “invasão” dos curumins na piscina da área do Parnaso – Parque Nacional da Serra dos Órgãos.
Além das cachoeiras, como vimos no capítulo anterior, os moleques da Granja Guarani gostavam também de se misturar aos turistas na piscina principal do Parque Nacional. Contudo, para chegar à essa piscina, como os curumins da Granja e da Pedreira nunca tinham dinheiro para pagar o ingresso no Parque Nacional, era necessário driblar os guardas do Parnaso em sorrateiras “invasões” da área ambiental. O “ataque” era deflagrado a partir de uma cerca de arame farpado que separava o parque do bairro, quase na altura do Quiosque das Lendas.
Após a invasão da cerca, era necessária uma arriscada travessia sobre o Rio Paquequer, em cima de uma escorregadia adutora de água, que ficava quase uns cinco metros de altura acima das pedras. Depois disso, era se embrenhar na mata e ficar à espreita. Quando os guardas davam as costas para patrulhar o ponto, os moleques saltavam aos bandos e se misturavam aos turistas em meio à área de piquenique do parque, repleta de mesas e cadeiras de pedras. Daí, até a piscina, era um piscar de olhos. 
Tentando segurar os intrépidos moleques, a direção do Parnaso, com o tempo, substituiu a cerca por um muro de mais de dois metros de altura, encimado por cacos de vidros. Tudo em vão, os curumins escalavam, quebravam os cacos e continuaram a “invasão” da mesma forma. Os pobres coitados dos guardas não conseguiam nos acompanhar, pois os curumins conheciam cada moita do parque, afinal aquele era o quintal da nossa casa. 
A piscina artificial do Parque Nacional abastecida com água natural de um dos riachos da Bacia do Paquequer é extremamente bela e muito bem planejada. Além do charme da ponte e da ilha ao centro, a área de lazer aquática foi pensada para crianças e adultos de todas as idades.
Um dos lados da ponte tem a água, no máximo, até os joelhos de um adulto, ou seja, ideal para quem não sabe ou está aprendendo a nadar. No outro lado, a água chega à cintura, algo perto de um metro de profundidade, para quem sabe nadar, mas ainda não está preparado para pontos mais profundos. 
Já a parte da frente da piscina tem profundidade de mais de dois metros e é destinada aos adultos. Neste ponto, um dos passatempos prediletos da molecada era vasculhar o fundo da piscina à procura de relógios, correntes, pulseiras, brincos, moedas e todo tipo de objeto que os incautos turistas perdiam em seus desastrados mergulhos. Quando o dono era descoberto, o objeto era devolvido, caso contrário, virava presente para a mãe ou o pai do moleque.
Ainda nesta parte mais funda da piscina do Parque Nacional, até início dos anos 70, havia um trampolim de madeira em cima de uma rocha em um dos seus lados. Não duvido nada que o trampolim tenha sido retirado pela administração do parque por causa das peripécias dos moleques da Granja Guarani. 
Mas, quem disse que os curumins da granja se contentavam com a monotonia das braçadas na piscina? O que os moleques queriam era “voar”, expressão que usávamos para os saltos nas cachoeiras e nas piscinas de lugares arriscados. Na falta do trampolim, as árvores ao lado da piscina eram escaladas às pressas, para que os guardas do parque não vissem a artimanha, e viravam ponto de partida para espetaculares saltos, como aqueles do “Poço de Baixo”, para o delírio de incrédulos visitantes do PNSO.  
Além da piscina do Parnaso, alguns curumins da Granja Guarani, de vez em quando, gostavam de mostrar suas habilidades um pouco mais longe do seu território e partiam em direção à Cascata dos Amores, perto do bairro do Alto, onde há também um belo poço natural. Neste poço, a maioria dos freqüentadores preferia escorregar no “tobogã” da cachoeira que deságua no poço. Já os indiozinhos da Granja, sempre ávidos por aventuras, descobriram que dava para saltar da rua que dá acesso Cascata dentro do poço. Mais uma vez, o show era certo para quem assistia as manobras. 
Mas, nem tudo era brincadeira na vida dos curumins da Granja Guarani. Para ter dinheiro para ir ao cinema, comprar um gibi ou mesmo para engrossar o orçamento familiar, os indiozinhos tinham que trabalhar desde muito cedo e ninguém reclamava. Assunto para o próximo capítulo.
Cesar Rodrigues
Jornalista-Colaborador da AMAGG
Fotos: Acervo PNSO

Um comentário:

  1. ARMINDO COELHO PRESIDENTE DA AMAGG11.7.13

    CESAR RODRIGUES uma história viva da GRANJA GUARANI, infância com história que hoje não se vê mais,merece um BEST SELLER, essas histórias.

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