segunda-feira, julho 08, 2013

OS INDIOZINHOS DA GRANJA GUARANI – PARTE 2

Dando continuidade ao cotidiano dos “Indiozinhos da Granja Guarani”, a forma que optamos para nomear os moleques (meninos e meninas, na verdade) da Granja e da Pedreira, nas décadas de 60 e 70,  hoje vamos falar sobre os banhos nas cachoeiras do Parque Nacional, a diversão predileta dos intrépidos curumins.
A  gurizada da Granja tem um leque enorme de opções para se banhar nas águas do Rio Paquequer que, nasce na parte alta do Parque Nacional, mais precisamente na Pedra do Sino,  e despenca em cascatas na divisa do parque com o nosso bairro para, somente lá embaixo se juntar ao Rio Preto, um afluente do caudaloso Rio Paraíba do Sul.
Nunca é demais lembrar que o Paquequer é cenário central no “O Guarani”, romance de José de Alencar que emprestou o nome ao nosso bairro. Na sua descida parque abaixo o nosso riozinho vai ganhando corpo e volume d’água, formando poços para o deleite da gurizada, principalmente no verão.
A primeira piscina natural próxima à Granja Guarani é o “Poço do Tarzan”. Mas, nesse aí, só entram os curumins maiores, porque o danado é tão fundo quanto assustador. A profundidade é tanta que o poço fica escuro, escondendo pedras no seu leito. Grandes rochas na sua lateral servem de trampolim para os corajosos moleques que resolvem se arriscar a mergulhar no escuro. Como a região desse poço fica em mata fechada, há muita sombra ao redor, o que parece deixar a fria água do Paquequer ainda mais gelada, mesmo no verão.  
Rio abaixo, chegamos no Poço do Mariozinho. Esse sim já é mais ensolarado e, consequentemente, mais confortável. Contudo, ainda não é território pra curumim pequeno. Um dos seus lados também é tomado por uma grande rocha de onde a molecada despenca em vôos de mais de 3 metros de altura.
Este poço é bastante interessante porque uma das suas pedras esta encaixada entre outras duas, mas, não chega a tocar o leito do rio. Por causa disso, os meninos e meninas mais corajosos, mergulham de um lado do poço, passam pelo “túnel” debaixo d’água para sair “cantando vitória” do outro lado, após essa arriscada investida uma vez que o espaço é pequeno para a manobra submarina.
Uma das extremidades deste poço também causava certo pânico nos curumins. É que antes de se precipitar para a próxima cachoeira, a água encontra um buraco e forma uma espécie de redemoinho. Os mais velhos diziam que se entrássemos nesse redemoinho seríamos engolidos pelo rio. Pelo sim pelo não, ninguém nadava por perto.   
Depois de uma grande laje de pedra, onde ao lado se encontra um belo carramanchão da antiga residência da família Guinle (a família loteadora da Granja Guarani), as águas do Paquequer, após formarem duchas no final deste paredão, enchem uma nova piscina natural, que os moleques da Granja Guarani chamam de “Poço do Meio”. Neste poço a principal atração é um grande muro colado à ele que cerca a antiga e citada residência dos Guinle. Como não podia deixar de ser, os curumins maiores escalavam esse puro e se jogavam no poço numa altura de mais de três metros.
Poucos metros abaixo fica o ponto preferido de banho dos indiozinhos da Granja Guarani. O nome oficial é Piscina Slopper, mais, os moleques chamam o lugar de “Poço de Baixo”. Esse certamente é o mais fotografado poço formado pelo Paquequer, porque fica ao lado da entrada principal do Parque Nacional e as águas passam embaixo de uma ponte onde os turistas podem apreciar a estupenda paisagem.
O “Poço de Baixo” é ideal para quem ainda não sabe nadar, pois tem uma parte rasa, ao lado de um banco de areia. A parte mais funda fica embaixo da correnteza de espuma formada pela força do rio. Esta piscina teve sua configuração alterada com um represamento das águas acima do poço.
Antes desse represamento, os moleques usavam uma escada em uma das extremidades do lugar para alcançar o que chamávamos de “muralha”. Deste muro, com também cerca de três metros de altura, os moleques voavam em incríveis saltos mortais no poço. Na década de 70, a inspiração dos saltos vinham dos mergulhos dos penhascos de Acapulco, no México, cujas competições assistíamos pela TV.
O repertório de saltos dos curumins no “Poço de Baixo” era bem variado, para delírio dos turistas que, da ponte ao lado da entrada no parque fotografam, aplaudiam e pediam novos mergulhos aos garotos. O salto de maior complexidade era o que chamamos de “canivete”, em que o moleque salta e, no ar, encosta as mãos na ponta dos pés, estica o corpo novamente e entra de cabeça na água.
Havia também o salto “anjinho”, fácil de fazer, porque bastava abrir os braços em forma de asa no meio do salto. Tinha, ainda, o “rabo de arraia”, em que o moleque pulava de frente, mudava a direção do corpo no ar e entrava no poço na posição contrária que pulou, espalhando a água com uma “chicotada” dos pés. Cambalhotas e saltos de costas também não faltavam.
Só considerávamos saltos perfeitos aqueles em que o moleque conseguia fazer todos os movimentos, mas, entrando na água com pernas e pés juntos. Nem precisa dizer que esta era uma brincadeira arriscada, pois, no fundo poço sempre há uma pedra. Invariavelmente um ou outro moleque raspava o corpo nessas pedras e deixavam a água sangrando. Um primo meu bateu a cabeça numa pedra e ficou com um desvio na coluna.
Por conta desse perigo, os pais dos indiozinhos não aprovavam a ida deles às cachoeiras, sem a presença de um adulto. Mas, ninguém segurava os curumins em casa, principalmente no verão. Em muitas casas, como na minha, a ida à cachoeira sem autorização valia uma surra de vara de marmelo na volta, além de outras repreensões.
E, não tinha como esconder a fuga para o banho no poço. Tudo denunciava a peraltice, desde a roupa molhada, o cabelo embaraçado e úmido, até a enorme mancha vermelha na barriga. Explicando melhor, essa mancha ficava no corpo porque, junto a quase todos os poços citados havia grandes lajes de pedra que ficavam literalmente fervendo no verão. Para compensar a água gelada, os moleques tomavam banhos de sol nestas lajes, muitas vezes de bruços, ou seja, o vermelhão era inevitável. Exposições ao sol mais prolongadas na laje viraram até desidratação em alguns moleques que dormiam nas pedras.
Além das cachoeiras, os curumins da granja adoravam mergulhos na piscina do Parque Nacional e em poços de bairros vizinhos. Isso fica para amanhã.
Cesar Rodrigues

Jornalista-Colaborador da AMAGG

2 comentários:

  1. Anônimo8.7.13

    Lindas cachoeiras, qualquer turista que visitar o bairro irá se apaixonar, seja na comunidade no bar do Kiko e na pizzaria do Fernando, ou nas cachoeiras e caminhos historicos...parabéns pela excelente matéria!!!

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  2. Esta ultima foto bateu uma nostalgia, aprendi a nadar nela o nosso querido amigo já falecido Antonio Botafogo, marido de d. Vilma mãe de Fabio, Fabiane e Fabiula, que nos ensinou a nadar, eu e uma "penca" de gente da minha idade, ele nos jogava no meio dela e mandava a gente se virar era muito legal no inicio bebiamos um pouco d'agua, mas no final dava tudo certo, não tivemos nenhum César Cielo, mas também não morreu ninguém afogado, bons tempos que não voltam mais, uma pena.

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