quinta-feira, julho 04, 2013

HOTEL CLUBE CAXANGÁ: DO AUGE AO FUNDO DO POÇO

O assunto abaixo não tem muito a ver com a Granja Guarani, mas, como foi vivenciado por mim, nascido e criado no bairro, acho que vale à pena dividir com os amigos do blog.

HOTEL CLUBE CAXANGÁ: DO AUGE AO FUNDO DO POÇO


Nos anos de 1975 e 1976 pude viver um dos momentos mais marcantes do Hotel Clube Caxangá, hoje, infelizmente, em ruínas. O local era realmente muito glamouroso, ponto de encontro do society teresopolitano, palco de grandiosas festas e reduto predileto de artistas em passagem pela cidade. Além do glamour social, o Caxangá era também fervilhante na área esportiva.
Tive o privilégio de morar no hotel do Caxangá, cortesia da direção do clube à uma irmã minha que era sub-gerente do restaurante do clube, e que havia se formado em Administração de Empresas na Feso.
O hotel era tão charmoso quanto o clube. Lembro-me das inúmeras obras de arte (esculturas e óleos sobre telas) na recepção, áreas sociais e corredores do hotel. O bom gosto estava presente nos mínimos detalhes, desde o chaveiro nas cores laranja e branco com o logo do clube (um feliz indiozinho) que acompanhava as chaves dos quartos até os azulejos dos banheiros, com a mesma predominância nas cores e com um circulo ao meio.
Ainda no hotel, lembro do aconchego do apartamento duplex que ocupávamos no sub-solo do prédio, destinado aos “graduados” funcionários do hotel e clube. Era o mesmo acabamento dos quartos destinados aos hóspedes que tinham a inovação (à época) dos carpetes e aquecedores elétricos que, igualmente, eram uma novidade naqueles meados dos anos 70.
O restaurante do clube, bastante amplo e com uma vista espetacular para parte dos bairros do Alto e Granja Comary, facilitada por ser o ambiente totalmente envidraçado, vivia em ebulição quase todos os dias da semana de quase todos os meses do ano. O cardápio do café da manhã, do almoço e das sobremesas era riquíssimo em cores e sabores. Um batalhão de cozinheiros, copeiros e garçons compunha o quadro de pessoal no atendimento aos hóspedes e visitantes.
O trabalho era dobrado nas inúmeras festas no clube e ainda nos numerosos eventos esportivos promovidos pelo Caxangá. O carnaval era espetacular com orquestras de primeira linha animando os exigentes foliões. Eram comuns também os shows de artistas de renome nas noites dos finais de semana no clube.
Tão logo o país entrou na febre da Discoteque, o espaço que abrigava a piscina térmica do clube (outro luxo do Caxangá), e que ficava ao lado do restaurante, ganhou uma cobertura de móvel de madeira. De dia era piscina e de noite se transformava numa badalada boate onde o “high society teresoplitano-carioca” balançava o esqueleto. 

O Caxangá também era exemplar na promoção de eventos esportivos. O clube conseguiu até atrair para a cidade o disputadíssimo torneio Banana Bowl de Tênis, depois de construir quatro elogiadas quadras de tênis: duas de treinamento (de granito) e outras duas de competição (de saibro). Nessas quadras desfilaram a nata dos tenistas brasileiros e sul-americanos que estavam despontando no cenário internacional do tênis.


Ainda na área esportiva, lembro que o Caxangá recebeu, em 1975, o time de futebol do Botafogo que, naquele ano ficou com o vice-campeonato carioca, ficando atrás do Fluminense apenas no saldo de gols. Os alvi-negros treinavam na Granja Comary e se hospedaram no Caxangá. Conheci de perto atletas de pontas como o zagueiro Osmar, o goleiro Wendel, os meias Manfrini e Dirceu, além do polêmico e bom de bola Mario Sergio.
Interessante é que o clube teve como origem uma Associação de Servidores Públicos do Estado. Sob a tutela desta associação o Caxangá prosperou, mas, não sei exatamente porque entrou em declínio e foi passado para a iniciativa privada, onde, contrariando a lógica de mercado, acabou de afundar. Hoje, o que antes cheirava a perfume francês fede com fezes; o que antes era guardado por seguranças contratados, hoje é tomado por bandidos que inacreditavelmente usam o local para assassinatos; o que antes brilhava, vive hoje na escuridão; o que antes motivo de orgulho para cidade, hoje é um estorvo. De bom, só ficaram mesmo as memórias.

Cesar Rodrigues

Jornalista

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