domingo, janeiro 20, 2013

O Quiosque das Lendas


   Atrativo turístico, sítio histórico que remonta a origem dos bairros de Teresópolis, local que transpira arte e cultura... Apesar de uma importância que engloba vários interesses públicos, e de tantas promessas pela sua recuperação, o Mirante da Gran-ja Guarani está em ruínas.
     Situada entre os caminhos sinuosos da Granja Guarani, onde se desfruta de um amplo e belo panorama da Serra dos Órgãos, da CBF e do bairro do Alto, a construção neocolonial emoldurada por colunas toscanas de capitel simples e arcos de alvenaria revestidos por azulejos portugueses, ainda guarda resquícios da beleza que provocou visitantes do mundo inteiro e de veranistas, encantados com o seu estilo arquitetônico de influências coloniais mexicanas e mou-riscas. Composto por dois corpos interligados por um ava-randado coberto, encimando uma grande elevação que forma uma espécie de platô, o mirante tem cobertura em telha-canal com coruchéus, que remetem aos caramanchões por sua forma circular, daí ser também conhecido como “carramanchão” da Granja Guarani.
     O revestimento em azulejos portugueses, produzidos em Lisboa, no ano de 1929, é obra do renomado artista Jorge Colaço (1864-1942) e contam quatro lendas indígenas: O Dilúvio”, “O Anhangá e o Caçador”, “A moça que saiu para procurar marido” e “Como apareceu a noite”. O autor dos traços fortes, em azul sobre branco, foi um dos maiores azulejistas de Portugal no princípio do século XX, com  trabalhos expostos desde o Palácio de Windsor na Inglaterra, até o Centre William Reppard na Suíça, passando por países como Cuba, Argentina, Brasil e Portugal.
     Centro das admirações dos que se preocupam com a memória, o Mirante da Granja Guarani provoca também historiadores e alunos de disciplina de introdução aos estudos históricos. Em artigo científico produzido para o Curso História da Universidade Norte do Paraná - Unopar, Marcelo Fabiano Maia Ferreira, estudou as lendas indígenas expostas no Mirante. “Em “O dilúvio”, a mitologia indígena trata de uma lenda muito parecida com o dilúvio bíblico de Noé. Na versão guarani, Tamendonaré (Tamandaré) avisado por espíritos antepassados que haveria um grande dilúvio, se refugia com sua família em cima de uma grande palmeira (pindorama), se alimentando também de seus frutos. Sobrevivendo ao dilúvio, Tamendonaré repovoa o mundo, com os guaranis se considerando seus descendentes diretos. Na lenda “Como a noite apareceu”, conta-se a história de como a filha do Cobra Grande fez três emissários de seu jovem noivo roubarem o côco de tucumã de seu pai e assim liberar a noite sobre o mundo, com pássaros que cantam ao amanhecer e outros ao anoitecer. Em “O anhagá e o caçador”, Colaço retrata o terrível espírito protetor dos animais nas florestas brasileiras. Anhangá, que por vezes se disfarça ele próprio de animal para surpreender caçadores, principalmente aqueles que não respeitam animais ainda recém-nascidos ou fêmeas prenhes. Por último, na lenda “A moça que saiu para procurar o marido”, é relatada a história da índia guarani Nheambiú, que se apaixona pelo guerreiro tupi Cuimbaé, prisioneiro dos guaranis. E como ela, após saber da morte de seu amor, se transforma no pássaro urutau, que entoa durante a noite um canto parecido com um lamento humano”, conta o aluno em seu trabalho, encomendado pelo professor de história, Dirceu Casa Grande Júnior.

     Tombado em 11 de novembro de 1982 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - INEPAC, catalogando-o como “uma pequena jóia neocolonial”, o Mirante da Guarani é protegido também pela Lei Orgânica Municipal, de 1990. Mas, embora tenha grande importância histórica para o município, além de seu enorme apelo turístico e cultural, o prédio representa hoje apenas um monumento ao descaso das autoridades que, ao longo dos últimos trinta anos, deixaram que ele chegasse ao deplorável estado em que se encontra.
Fonte: Secretário de Cultura Wanderley Peres

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